14 julho 2008

Será a Ordem dos Advogados uma organização mafiosa?

Será a Ordem dos Advogados uma espécie de «organização mafiosa»?
Essa é a pergunta que apetece fazer, depois de ler o relatório que o Bastonário enviou aos advogados.
Há coisas de que já me tinha apercebido, mas não imaginava que elas tivessem a dimensão e a gravidade que se adivinha do relatório do Bastonário.
Há muitos anos que é para mim evidente o escândalo da formação e, ainda mais, o escândalo do negócio das conferências quando é certo que será muito fácil encontrar voluntários disponíveis para conferenciar gratuitamente.
Dessa negociata não se conhecem quaisquer números.
Há meses que me apercebi que os dos conselhos de deontologia não cumprem as suas funções estatutárias e encomendam projectos de decisão a outros advogados, que são pagos, assinando de cruz as suas decisões, o que constitui o escândalo dos escândalos.
Não imaginava que as coisas fossem tão graves como o relata Marinho Pinto neste documento notável:

A SITUAÇÃO ACTUAL NA ORDEM DOS ADVOGADOS


Caros Colegas

A situação que se vive actualmente na Ordem justifica que o Bastonário tome uma posição dirigida a todos os Advogados.

No longo texto que se segue vou falar-vos, entre outros temas, sobre

  • Contestação de alguns presidentes dos conselhos distritais ao Bastonário,
  • Reforma do apoio judiciário,
  • Fim dos favoritismos nas nomeações para apoio judiciário,
  • Formação ministrada pela OA,
  • Financiamento das Delegações,
  • Reunião conspirativa de alguns antigos bastonários,
  • Comparação entre magistrados e agentes da PIDE,
  • Destituição do Bastonário.

    Por isso, peço a todos e a cada um dos Colegas que leiam o texto que se segue, pois, ele reflecte não só posição do Bastonário e do Conselho Geral sobre a actual situação, como também procede a esclarecimentos necessários e até à reposição da verdade sobre algumas falsidades que têm andado a circular das mais diversas maneiras, incluindo em órgãos de informação. Peço, pois a atenção dos Colegas, pedindo desculpa pelo tempo que lhes vou ocupar.

    CONTESTAÇÃO DESDE O DIA DAS ELEIÇÕES

    A minha eleição como Bastonário nunca foi aceite por certos membros da Ordem, alguns dos quais estão há mais de dez anos em cargos dirigentes. Durante a campanha eleitoral fui acusado dos mais tenebrosos desígnios e insultado com os piores epítetos que se podem dirigir a um candidato. Tudo, sempre com a ampla cobertura noticiosa, sobretudo em certos jornais de Lisboa.

    No próprio dia das eleições e, ainda antes de os votos estarem contados, já dois antigos Bastonários se insurgiam publicamente contra o previsível resultado dessas eleições democráticas. Desde então, até hoje tem sido um desfiar de calúnias, de reuniões conspirativas, de intrigas diversas, sempre com a generosa publicitação de certos órgãos de informação, nomeadamente de um jornal de Lisboa, o Diário de Notícias de Lisboa, que, aliás, se destacara pelo apoio a outro candidato, durante a campanha eleitoral.

    Até um processo disciplinar me chegou a ser instaurado por eu, enquanto Bastonário, ter emitido uma opinião sobre a génese do mais publicitado processo judicial da história dos tribunais portugueses.

    Tudo tenho suportado em silêncio, mesmo quando sou alvo de insultos, procurando não polemizar em público com Colegas, sempre com o objectivo de salvaguardar o prestígio da Ordem e a dignidade da Advocacia.

    Mas apesar dessa minha postura ou talvez por isso mesmo, aquela situação veio a desenvolver-se num crescendo que, se não for sustado, poderá ter graves consequências para a Ordem dos Advogados.

    No centro de toda a situação estão alguns Conselhos Distritais; uns porque nunca aceitaram o resultado das eleições e outros porque logo vislumbraram, com as primeiras medidas do novo Conselho Geral por mim presidido, o princípio do fim dos seus privilégios.


    ORÇAMENTOS DE MILHÕES DE EUROS

    Os Conselhos Distritais gastam mais de 60% do orçamento da Ordem, quando na prática apenas têm uma actividade nos termos do EOA – a Formação. Metade do produto de todas as quotizações, ou seja, mais de € 5.000.000 é entregue pelo Conselho Geral aos conselhos distritais. Além disso, ainda recebem do Conselho Geral mais uns subsídios suplementares; e, como se isso não bastasse, ainda obrigam os Advogados Estagiários a pagar a formação, pois cobram-lhes cerca de 2.000.000 de euros anualmente. Só para a inscrição no estágio são logo exigidos 600 ou 700 euros a cada candidato e depois, durante, o estágio têm de pagar mais uma infinidade de outras despesas, desde conferências até à inscrição para exames.

    Em 2007 os Conselhos Distritais receberam € 7.949.803,68 (sete milhões, novecentos e quarenta e nove mil, oitocentos e três euros e sessenta e oito cêntimos). Em 2008 os Conselhos Distritais vão gastar € 8.899.041,68 (oito milhões, oitocentos e noventa e nove mil e quarenta e um euros e sessenta e oito cêntimos). Só os Conselhos Distritais do continente gastarão este ano mais de 8.300.000 (oito milhões e trezentos mil euros).

    Esta abundância de dinheiro, por sobre ser chocante perante as crescentes dificuldades da maioria dos Advogados em pagar as elevadas quotizações que lhes são exigidas, gerou também vícios de funcionamento terríveis e hábitos despesistas absolutamente irracionais.

    Os vícios são evidentes. Uma funcionária do Conselho Distrital do Porto, ainda não há pouco tempo ganhava cerca de 11.000 euros por mês, enquanto outra no Conselho Geral auferia cerca de 10.000 euros mensais; funcionários a receber quatro ou cinco mil euros por mês é uma situação relativamente vulgar. Isso para além do uso de cartões de crédito em nome da OA por parte de vários dirigentes distritais.

    Além disso é sempre muito difícil apurar onde os Conselhos Distritais gastam tão elevadas quantias porquanto a maioria das despesas é, quase sempre, imputada a centros de custos.

    Analisemos, agora, algumas das situações mais escandalosas.


    EDIFÍCIOS PARA A FORMAÇÃO

    O Conselho Distrital de Coimbra, que usufruía (e usufrui) de cinco ou seis salas no edifício do Palácio da Justiça, construiu, há poucos anos, um prédio de cinco ou seis pisos, o último dos quais é inteiramente ocupado com um restaurante e esplanada panorâmicos. Tal edifício, que só poder ser destinado à formação de Advogados Estagiários, custou mais de 400 mil contos que ainda estão a ser pagos com as quotizações dos Advogados de todo o país. E ainda por cima, o edifício foi construído num terreno «doado» pela Câmara Municipal de Coimbra mas com uma cláusula de reversão, segundo a qual se o edifício não for usado para a formação, reverterá para a autarquia, sem qualquer indemnização para a Ordem.

    O Conselho Distrital de Faro possui, neste momento, cerca de 400 mil euros numa conta a prazo, destinados, também, a construir uma sede nova. Essa verba resultou de um empréstimo contraído há cerca de cinco anos pelo Conselho Geral da OA e foi logo transferida para o CD de Faro que desde então usufrui dos respectivos juros. Ou seja, o CG (rectius, os Advogados de todo o país) paga(m) a amortização e os juros do empréstimo e o CD de Faro recebe, desde há 4 ou 5 anos, os rendimentos da sua aplicação financeira!...
    Aparentemente, o edifício que o CD de Faro pretendia construir, destinar-se-ia também à formação de Advogados Estagiários.


    O CANCRO DA ORDEM DOS ADVOGADOS

    A formação tem sido o cancro da OA. O actual modelo de formação surgiu unicamente com um objectivo: dinheiro. Surgiu quando, nos finais dos anos 80, Portugal recebeu centenas de milhões de contos para a formação profissional. Todos se atiraram a esses fundos com mais ou menos cupidez. E infelizmente, a OA não ficou atrás e logo instituiu a obrigação de os Advogados Estagiários assistirem a umas aulas criadas à pressa unicamente para que a Ordem e alguns Advogados (principalmente dirigentes da OA logo transformados em professores) pudessem receber uma fatia dos fundos comunitários. Quanto mais «alunos» houvesse, maior era a fatia recebida. E quando os fundos comunitários acabaram, os vícios já estavam instalados, já não se podia voltar atrás e, então, passou a ir-se ao bolso dos Advogados Estagiários.

    O resultado está à vista de todos. Em cerca de 20 anos o número de Advogados em Portugal passou de 5 ou 6 mil para mais de 30 mil e se a situação não for sustada, dentro de 10 anos ou 15 anos seremos 50 mil Advogados. Tudo devido à formação.

    E a verdade dura e crua é que toda a formação está entregue exclusivamente aos Conselhos Distritais, sendo eles (e quem com eles pactuou), obviamente, os únicos responsáveis por este estado de coisas, ou seja, pela massificação descontrolada da nossa profissão.

    Daí os ataques de que tenho sido alvo; daí as manifestações de ternura para com os Advogados Estagiários. É que quantos mais Advogados Estagiários houver, mais dinheiro recebem os CD’s pelas inscrições na OA, nos exames e, sobretudo, mais aulas serão necessárias e mais dinheiro receberá o exército de formadores, entretanto criado junto dos Conselhos Distritais, sendo que, em muitos casos, a quase totalidade deles são dirigentes e ex-dirigentes da OA, escolhidos sem qualquer concurso.

    Ora, foi precisamente contra isto que eu me candidatei; foi também para combater este estado de coisas e não para pactuar com ele.

    Mas há mais razões para a amotinação dos Conselhos Distritais.


    OS CONSELHOS DISTRITAIS E O CONSELHO GERAL

    Quando tomei posse decidi não permitir que os Presidentes dos Conselhos Distritais participassem nas reuniões do Conselho Geral. Entendi e entendo que cada um só deve ocupar os cargos para que foi eleito, cada um deve desempenhar apenas as funções a que se candidatou. Os presidentes dos CD’s não foram eleitos para o Conselho Geral e portanto não devem desempenhar as respectivas funções. Em minha opinião, não deve haver lugares por inerência em órgãos executivos. Por isso, para mim, os presidentes dos CD’s só em situações especiais poderão participar no CG e a convite do bastonário.

    Para além disso, houve também outros motivos mais pontuais.

    Os problemas com o CD de Lisboa começaram logo na posse dos novos órgãos eleitos, pois o seu presidente queria que os membros do CDL fossem empossados juntamente com o Bastonário, o Conselho Superior e o Conselho Geral. Como eu (com a concordância, aliás, do presidente eleito do Conselho Superior) não aceitasse essa pretensão (entendi que o CD de Lisboa não deveria ter um tratamento diferente do dos outros Conselhos Distritais), ficou logo criado um clima de animosidade e até hostilidade em relação ao Bastonário. Mais tarde esse clima foi-se agravando, por o presidente do CD de Lisboa pretender usar a seu bel-prazer o Salão Nobre da OA, incluindo para iniciativas de cariz puramente comercial.

    Mas a questão central que conduziu ao actual clima de insubordinação estatutária tem a ver com outra razão – a mais importante de todas.


    O FINANCIAMENTO DAS DELEGAÇÕES

    Desde há anos que os Conselhos Distritais não cumprem o Estatuto da Ordem dos Advogados quanto ao financiamento das Delegações. Com efeito, segundo o artigo 174º, nº 2 do EOA, as Delegações deveriam receber ¼ do produto de todas as quotas cobradas pela Ordem. Infelizmente, os Conselhos Distritais não têm cumprido cabalmente essa obrigação estatutária. Só em 2008 as Delegações da OA deveriam receber mais de 2.500.000 de euros (mais de dois milhões e quinhentos mil euros), já que o total das quotizações cobradas pelo Conselho Geral se prevê que seja superior a 10 milhões de euros.

    Ora, é aqui que está a verdadeira razão para a amotinação de alguns CD’s do continente. É que eu já fiz saber que para o próximo ano, as coisas vão mudar e o EOA vai ter de ser cumprido. Eu quero que as Delegações sejam financiadas condignamente, ou seja, de acordo com o EOA, porque, tal como sempre defendi e consta do Programa de Acção com que me candidatei, teremos de valorizar o papel das Delegações - não com discursos e jantares, mas dando-lhes os meios financeiros para que possam assumir-se como células vivas e actuantes deste grande organismo que é a Ordem dos Advogados.

    Como nenhum outro órgão da OA, as Delegações têm, pela sua proximidade com o exercício diário da Advocacia e da administração da justiça, uma posição privilegiada para detectar, prevenir e solucionar os problemas concretos dos Advogados e dos Cidadãos nossos clientes nos tribunais portugueses.

    Ora, apesar de todas as proclamações e até da súbita generosidade de alguns Conselhos Distritais, a verdade é que continuam a ser espoliadas pelos Conselhos Distritais das verbas a que estatutariamente têm direito – e eu não vou permitir isso.

    Só para se ter uma ideia do ponto a que a situação chegou, o Conselho Geral já teve de pagar deslocações a Lisboa de alguns presidentes de Delegações porque estas não tinham dinheiro sequer para suportar esse custo. Alguns membros das Delegações têm de pagar do seu bolso parte das despesas que fazem em nome e no interesse da Ordem. A Delegação de Braga, v.g., que representa cerca de 500 Advogados, não tinha dinheiro para adquirir mobiliário para a sua sede, tendo de ser auxiliada directamente pelo Conselho Geral. Nos termos do EOA a Delegação de Braga deveria receber só este ano mais de 50.000 euros.

    Ora, tudo isto põe em causa algumas redes de poder criadas há décadas em torno de alguns Conselhos Distritais. Ninguém perde privilégios sem resistir. E, por vezes, quanto mais escandalosos são os privilégios maiores são as resistências à sua abolição. Quando se trata de os defender não se olha a meios para desacreditar quem os põe em causa.

    GUERRILHA INTERNA

    Permita-se-me também uma palavra para a situação de guerrilha interna que foi desencadeada contra o Bastonário desde o início do seu mandato.

    Quando decidi que os presidentes dos Conselhos Distritais deixariam de participar no Conselho Geral, instituí uma reunião com periodicidade mensal entre eles e o Bastonário. Já se realizaram quatro ou cinco reuniões e nunca, em nenhuma delas, os Conselhos Distritais (com excepção dos Colegas das Regiões Autónomas) apresentaram qualquer proposta de discussão. Limitavam-se a exigir participar no Conselho Geral, chegando alguns a afirmar expressamente que nunca seriam solidários com as deliberações do Conselho Geral em que não tivessem participado, ou seja, que não tivessem discutido e votado em plano de igualdade com os membros eleitos do CG.

    Apesar de tudo isso, convidei todos os Presidentes dos CD’s para participar numa reunião do Conselho Geral comemorativa do Dia do Advogado em Lamego (para a qual foram convidados também os Colegas da Delegação local da OA), mas nenhum deles compareceu. Uns (nomeadamente os das Regiões Autónomas), porque não puderam, devido aos seus compromissos profissionais ou outras razões relevantes, e os outros (num ostensivo desrespeito para com a OA e, sobretudo para com a Delegação de Lamego), porque consideraram que a ordem de trabalhos era «inócua». Ou seja, consideraram «inócua» uma reunião solene do Conselho Geral no Dia do Advogado. Apenas os Colegas da Delegação de Lamego participaram nessa reunião. Na semana passada anunciaram que se recusavam definitivamente a participar nessas reuniões, confirmando, assim, que nunca tiveram interesse em discutir com os Bastonário os verdadeiros problemas da OA, mas apenas em participar num órgão para o qual não foram eleitos.

    Apesar de as competências dos diferentes órgãos da Ordem estarem claramente definidas no EOA, os presidentes dos Conselhos Distritais queriam também parte das competências do Conselho Geral, ou seja, queriam discutir, votar e aprovar matérias que são da exclusiva competência do Conselho Geral.

    Eu sempre defendi uma cultura de responsabilidade e não era depois de eleito que iria mudar. Cada um deve exercer as suas funções de modo a ser responsabilizado pelo que fez ou pelo que não fez. Não aceito que a responsabilidade de cada órgão ou dos titulares dos vários órgãos da OA se dissolva em amálgamas de conveniência ou em teias de interesses de circunstância.

    Em consequência, alguns Conselhos Distritais têm estado permanentemente a aprovar deliberações ou a tomar posições públicas contra o Bastonário e o Conselho Geral, numa tentativa de os desautorizar e desacreditar. Vejamos alguns casos, só a título de exemplo.

    CONSELHO DISTRITAL DE COIMBRA

    A Ordem dos Advogados celebrou um protocolo com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) para resolver o problema da acumulação de processos de contra-ordenação nesse organismo. O Conselho Geral organizou um concurso público interno (facto que é raríssimo na OA), mediante o qual seleccionou 15 Advogados (com menos de 5 anos de profissão) e 8 Advogados Estagiários para as tarefas que constituíam o objecto do protocolo, ou seja, analisar milhares de processos de contra-ordenação e propor a respectiva sanção.

    Pois, logo o Conselho Distrital de Coimbra aprovou uma deliberação, dizendo que não tinha sido consultado sobre esse protocolo e que as quantias pagas eram aviltantes, que ofendiam os Advogados, etc., etc. O CD de Coimbra, não fez as contas nem sequer se informou como devia, pois, se tivesse feito um telefonema sequer para o CG, ficaria a saber que cada Advogado e cada Advogado estagiário aufeririam cerca de 1.000 euros mensais por trabalharem 4 ou 5 horas por dia, 5 dias por semana, o que, diga-se, não sendo uma boa remuneração, era, contudo, satisfatória para quem está a dar os primeiros passos na profissão. Aliás, algum tempo depois, alguns dos Colegas já faziam todo o trabalho que lhes estava destinado em pouco mais de três horas por dia.

    Agora o CD de Coimbra deve estar satisfeito, pois, a ANSR já denunciou o protocolo. Preferiu celebrá-lo com a Universidade Católica onde ninguém considera as remunerações aviltantes nem ofensivas para quem presta os serviços.

    A actual presidente da Delegação de Coimbra, quando foi eleita manifestou interesse em que na cerimónia estivesse presente o Bastonário, mas o presidente do CD de Coimbra exigiu, com estupefacção dos presentes, que ela fosse empossada imediatamente a seguir à Assembleia eleitoral, dizendo em voz alta que quem mandava ali era ele.

    A hostilidade do CD de Coimbra em relação ao Bastonário tem sido evidenciada de muitas formas e está bem patente no seu site, onde, permanentemente se divulgam ataques ao Bastonário. Permanentemente, estão em exibição vários escritos contra o Bastonário, sendo que um deles, intitulado «Carta escancarada ao Bastonário» e subscrito por um formador desse Conselho Distrital, é claramente injurioso.

    CONSELHO DISTRITAL DE LISBOA

    O actual presidente do Conselho Distrital de Lisboa, eleito numa lista integrada na candidatura do Dr. Magalhães e Silva, nunca aceitou o resultado democrático das eleições para Bastonário. Por isso, desde início tem tido intervenções na comunicação social fazendo ataques públicos ao Bastonário. Algumas dessas intervenções assumem mesmo a forma de «ultimatos» e ameaças de constantes de instauração de processos disciplinares.

    A título de exemplo veja-se o inefável Diário de Notícias na sua edição de 2 de Fevereiro de 2008, titulava a toda a largura da página 12 (com chamada na 1ª pág.): «Conselho Distrital faz ultimato ao bastonário». Veja-se bem como o jornal 24 horas na sua edição de 13 de Fevereiro de 2008, apresentava na página 11 uma notícia (igualmente com chamada na 1ª pág.) com o título: «Processo ao bastonário». A esta notícia o presidente do CDL fez um «desmentido» e aproveitou para enviar para todos os órgãos de informação um texto ainda mais agressivo para o Bastonário.

    Também decidi pôr fim à utilização, por parte do CDL, do Salão Nobre da OA para iniciativas que sejam pagas. O CDL vinha, com frequência, utilizando (gratuitamente, claro) o Salão Nobre da OA, em associação com empresas comerciais, para sessões ditas de formação, destinadas a Advogados, mas pagas ao preço de centenas de euros pelos interessados. Numa dessas sessões destinadas a Advogados, o preço da inscrição era de 450 euros.

    Ora, eu comuniquei ao presidente do CDL (aliás, durante uma reunião com os presidentes dos CD’s) que não permitiria que o Salão Nobre fosse usado com finalidades comerciais, ou seja, para actividades aparentemente destinadas aos Advogados, mas que estes tivessem de pagar. Tudo o que se realizar no Salão Nobre tem de ser gratuito.

    Esse é também o método usado pelo CDL em relação aos estagiários, os quais pagam directamente grande parte da formação, nomeadamente conferências com créditos para efeitos de avaliação.

    CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

    Mas nesta matéria, o presidente do Conselho Distrital do Porto também não se deixou ficar para trás. Senão atente-se. Além dos ataques pessoais que me tem dirigido, desde há meses, sobretudo em reuniões com Delegações, sobressaem também posições públicas contra a Ordem e os interesses dos Advogados e dos cidadãos. Repare-se.

    A propósito da agressão a dois Juízes do Tribunal de Santa Maria da Feira, enviei à presidente desse tribunal, em nome da Ordem e dos Advogados portugueses, uma carta repudiando essa agressão, manifestando solidariedade aos magistrados agredidos e pedindo a todos que não deixassem de trabalhar, que não deixassem de administrar a justiça pois isso acarretaria graves prejuízos para os direitos dos cidadãos e para o próprio estado de direito. Pois, passadas algumas horas, o presidente do Conselho Distrital do Porto, logo publicou um comunicado, dizendo que os magistrados fizeram muito bem em deixar de trabalhar e apoiando expressamente essa decisão.

    Um dos combates que tenho travado com mais veemência tem sido o de tentar alterar a legislação altamente prejudicial à Advocacia, aos Advogados e aos cidadãos nossos clientes e que tem a ver, precisamente, com a forma com que são (mal)tratados os Advogados e os nossos clientes nos tribunais.

    Temos sido tratados como intrusos e como estranhos aos tribunais, porque os magistrados apropriaram-se deles como se fossem sua propriedade, como se fossem donos deles. Isso tem tido consequências gravíssimas para o exercício da Advocacia nos Tribunais, desde aspectos tão prosaicos como estacionamento de viaturas, casas de banho, salas da Ordem, etc., até a situações de verdadeiras faltas de respeito em relação aos Advogados e aos seus clientes. Tudo nos tribunais tem sido organizado em favor dos interesses e comodidades de quem neles trabalha e não em benefício dos direitos e necessidades de quem tem de ir aos tribunais.

    Com o objectivo de atenuar os efeitos nefastos desse estado de coisas, tenho procurado sensibilizar o poder político, nomeadamente o legislativo, para a necessidade de novas formas de gestão dos tribunais. Assim, no projecto de lei sobre o Mapa Judiciário, nomeadamente, quando à organização e funcionamento dos tribunais judiciais, tenho-me empenhado com todas as minhas forças para que a gestão dos futuros mega-tribunais de circunscrição seja uma gestão democrática e não uma gestão autocrática. Ou seja, tenho-me empenhado para que seja consagrado na lei uma solução de gestão assente numa Comissão executiva integrada por um Juiz, um procurador e um Advogado, em vez da solução autocrática de apenas um Juiz Presidente. Tudo isso com a oposição tenaz dos sectores mais conservadores e corporativos da magistratura judicial.

    Pois no momento em que eu intensificava as acções tendentes a fazer prevalecer legalmente o princípio da gestão democrática (na semana em que fui à Assembleia da República sustentar essa proposta), o presidente do Conselho Distrital do Porto e algumas Delegações da sua área, divulgaram uma deliberação contra essa solução, defendendo que os Advogados não deveriam participar na gestão dos tribunais e, claro, apoiando, implicitamente, aqueles que querem que a gestão dos futuros tribunais seja feita apenas por um Juiz presidente.

    O presidente do CD do Porto não apresentou qualquer justificação para essa posição (limitou-se apenas a estar contra a defendida pela Ordem e pela maioria dos Advogados), nem sequer a apresentou em nenhuma das reuniões com o Bastonário. Trata-se, evidentemente, de um acto contra a OA e, sobretudo, contra os interesses dos Advogados portugueses que todos os dias se defrontam com enormes dificuldades para exercerem a sua profissão nos tribunais.

    CONSELHO DISTRITAL DE FARO

    O presidente do Conselho Distrital de Faro organizou uma iniciativa para o dia 20 de Maio em que o convidado foi o Dr. José Miguel Júdice. Os insultos foram os de costume: comparar-me a alguns dos heróis da sua juventude. Pois, no dia seguinte, apesar de os insultos terem sido repetidos pela enésima vez, o Diário de Notícias afirmava que: «Júdice arrasa Bastonário da Ordem dos Advogados». Essa foi a forma de o Conselho Distrital de Faro comemorar o Dia do Advogado em 2008.

    A situação atingiu o seu máximo quando na passada 6ª feira, dia 11 de Julho, o presidente do Conselho Distrital Faro deu uma conferência de imprensa para anunciar que iria «fazer queixa do Bastonário ao Conselho Superior da Ordem dos Advogados por uma alegada violação de exclusividade por parte de Marinho Pinto». O Dr. António Cabrita afirmou nessa conferência de imprensa (segundo a TSF) que «o Bastonário recebe mais de cinco mil euros mensais supostamente para estar em exclusividade e não o faz».

    De acordo com o relato da TSF, o presidente do CD Faro disse aos jornalistas que Marinho Pinto «está a patrocinar uma médica, no caso dos médicos anestesistas acusados por homicídio por negligência, no Tribunal de Lagos». (cfr. notícia da TSF em:
    http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=967294).

    Ora, os factos anunciados pelo Dr. António Cabrita são falsos, nem se vislumbra qual seria a norma do EOA violada se fossem verdadeiros. Com efeito não patrocino nenhuma médica. Há cerca de três anos, fui nomeado pela OA para patrocinar, como assistente em processo-crime, uma senhora, sem quaisquer recursos económicos (é empregada de limpeza de profissão), cujo filho morreu em 2004, na mesa de operações do Hospital de Lagos, às mãos de uma jovem médica anestesista que trabalhava sozinha nesse hospital. Claro que, como patrono nomeado, não abandonei o caso depois de eleito Bastonário, embora não tenha podido comparecer em todas as sessões da audiência de julgamento. Desde que fui nomeado patrono pela OA, ainda não recebi qualquer quantia por despesas e trabalho já efectuados, incluindo mais de uma dezena de deslocações aos tribunais de Lagos e Portimão.

    Estes são apenas alguns exemplos da autêntica guerrilha que alguns presidentes dos Conselhos Distritais desencadearam contra o Bastonário e o Conselho Geral e são sobretudo elucidativos de que há certos dirigentes da Ordem que não olham a meios para atingir os seus fins que são os de perpetuar o actual estado de coisas, tentando por todas as formas (incluindo a chicana pública) desacreditar publicamente os órgãos legítimos da OA e impedi-los de desempenhar as funções para que foram eleitos.

    Foi, pois, neste quadro que surgiu a questão do apoio judiciário e do respectivo Regulamento aprovado pelo Conselho Geral. Analisemos então esta questão. Vejamos.


    REGULAMENTO DA OA SOBRE O APOIO JUDICIÁRIO

    No Verão do ano passado foi publicada uma lei da Assembleia da República que alterava radicalmente o funcionamento do apoio judiciário. Ninguém protestou, ninguém fez nada para essa lei ser alterada, ninguém se manifestou preocupado com esse diploma. Essa lei previa a criação de lotes de processos de preenchimento sucessivo, mas mesmo assim, ninguém disse uma palavra, ninguém se mexeu. Parece que todos os dirigentes da OA estavam distraídos, incluídos os actuais presidentes dos CD’s de Faro, Évora e Coimbra que nessa altura já desempenhavam os mesmos cargos. Por seu turno o actual presidente do Conselho Distrital de Lisboa era membro do Conselho Geral, mas também nada disse sobre essa leis. Bem pelo contrário.

    Na verdade, em 2006, o Conselho Geral propôs ao governo o regime de pacotes de processos, embora com a designação de «Escalões». O CG defendia então a constituição de «escalões» de 30 processos, «escalões» de 20 processos e «escalões» de 5 processos. Do Conselho Geral que concebeu e apresentou essa proposta fazia parte o actual presidente do Conselho Distrital de Lisboa, Dr. Carlos Pinto de Abreu. Como se vê, nessa altura os lotes eram bons, hoje não.

    Três dias antes de eu tomar posse como Bastonário (8 de Janeiro de 2008), foi publicada uma Portaria que regulamentava aquela lei em termos que são de todos conhecidos. Alterar essa Portaria foi o grande combate dos primeiros dois meses do meu mandato. Consegui essa alteração nos termos e condições que são de todos conhecidos. Reconheço que não consegui um bom regime de acesso ao direito, consegui apenas que ele não fosse tão mau quanto o governo pretendia.

    O regime criado com essa legislação prevê a criação de lotes de 50, de 30 e de 10 processos. Uma das alterações que se conseguiu em relação ao regime inicialmente previsto, foi revogar uma norma que exigia um mínimo de 200 lotes de 50 processos para Lisboa e de 100 lotes de 50 processos para o Porto.

    Portanto, tendo de continuar a haver lotes, porque tal está consignado na lei e na portaria, ficou contudo reservado ao Conselho Geral, a faculdade de dizer quantos lotes haverá em cada comarca. É, pois, necessário, estabelecer critérios para determinar o número de lotes que o Conselho Geral irá aprovar para cada comarca.

    Por isso se solicitou em 27 de Junho, p.p., aos Presidentes dos Conselhos Distritais para que se pronunciassem quanto ao número de lotes (com a composição referida nos nºs 2 e 3, do artigo 18º da Portaria n.º 10/2008, de 3 de Janeiro com as alterações introduzidas pela Portaria nº 210/2008, de 29 de Fevereiro) por cada uma das comarcas pertencentes às áreas geográficas de cada Conselho Distrital, pedindo-lhes para que as posições respectivas fossem comunicadas ao CG Conselho Geral, até ao dia 7 de Julho seguinte.
    Apenas o presidente do Conselho Distrital de Lisboa respondeu dentro do prazo indicado, remetendo para umas actas de umas reuniões do CDL.

    Já antes o Conselho Geral tinha tentado, sem êxito, ouvir os Conselhos Distritais acerca da aprovação do Regulamento de Organização e Funcionamento do Sistema de Acesso ao Direito na Ordem dos Advogados. O processo de aprovação decorreu da seguinte maneira.


    FIM DOS FAVORITISMOS NAS NOMEAÇÕES DO APOIO JUDICIÁRIO

    Após vários meses de intenso trabalho, concebeu-se e criou-se de raiz um novo sistema informático que fará a gestão de todo o sistema de acesso ao direito, nomeadamente, retirando as nomeações de Advogados aos magistrados e funcionários judiciais e, sobretudo, acabando com favoritismos nas nomeações oficiosas. Com o novo sistema, nas comarcas onde não houver lotes, que são a esmagadora maioria (refira-se que ó CG deliberou na sua última reunião que só haverá lotes nas 24 maiores comarcas do país), um Advogado só será nomeado uma segunda vez quando todos os inscritos na área respectiva forem nomeados uma vez. Acabaram-se certas práticas indecorosas neste domínio.

    Na fase final de criação desse sistema informático, mais concretamente, em 6 de Junho (6ª feira), o Conselho Geral, aprovou na generalidade a proposta de Regulamento, em conformidade com as leis em vigor, ou seja, a Portaria e a lei do apoio judiciário. A aprovação foi feita com um voto contra e duas abstenções e não com 6 votos contra, como diziam falsamente os presidentes dos CD’s do continente, em comunicado que divulgaram à imprensa.

    Tal Regulamento iria depois ser discutido (e alterado, se fosse caso disso) na especialidade numa reunião com os presidentes dos Conselhos Distritais que já estava marcada para o dia 12 de Junho (5ª feira seguinte). O Regulamento foi enviado a todos os presidentes dos Conselhos Distritais, por e-mail, em 9 de Junho (2ª feira), pelas 16.26 horas. Alguns CD’s fizeram mesmo circular esse regulamento pelas Delegações e outros não.

    Na reunião com os presidentes dos CD’s, foram feitas algumas críticas ao regulamento, mas não foi apresentada nenhuma proposta de alteração substantiva do mesmo, até porque, desde logo esclareci que não permitiria a eliminação dos lotes, porque isso seria violar a lei que os previa, nem a participação dos Advogados Estagiários nas escalas de processos e de prevenção, justamente porque, sendo estagiários, ainda não estão preparados para defender os direitos fundamentais da pessoa humana, designadamente a liberdade. As propostas que foram apresentadas eram de pormenor e todas foram aceites aquando da aprovação do regulamento na especialidade, que ocorreu na reunião do Conselho Geral de 16 de Junho.

    Alguns presidentes dos CD’s presentes sustentaram que o regulamento seria ilegal, ao que eu próprio respondi que se houvesse alguma lei que impusesse a obrigatoriedade de os Advogados Estagiários participarem no sistema de apoio judiciário Nomeadamente o art. 189º do EOA), então essa lei é que seria inconstitucional, por violação do princípio da igualdade na protecção jurídica decorrente, entre outros, dos artigos, 13º, 20º nº 2, 32º nº 3 e 208º da Constituição da República Portuguesa. Com efeito, há várias normas na CRP que garantem o direito de defesa em processo-crime, o acesso ao direito, mas sempre por Advogados. A CRP nunca fala em Advogados Estagiários.

    Acusar, agora, o Bastonário e o CG de não terem ouvido os Conselhos Distritais, não passa de um acto primário de cinismo, pois que foram ouvidos aquando do processo de aprovação na especialidade e não apresentaram qualquer proposta substantiva de alteração, provavelmente para poderem continuar a acusar o Bastonário e o CG de os não ouvir. Parece que as únicas coisas que pretendiam alterar eram o sistema de lotes (eliminando-os) e manter a possibilidade de os Advogados Estagiários continjuarem a fazer apoio judiciário.

    Poder-se-ia pôr a questão de ouvir as Delegações. Entendeu-se que não por várias razões. Primeiro, porque ouvir mais de 200 estruturas é sempre muito difícil em termos operacionais face à falta de tempo para tanto, à diversidade de posições e, sobretudo, quando muitas delas se fazem representar pelos presidentes dos Conselhos Distritais respectivos; depois, porque as Delegações não vão participar na gestão do Sistema de Apoio Judiciário, pois ainda não estão devidamente informatizadas e integradas no Sistema Informático da OA (SINOA). Atente-se que a inserção das Delegações no sistema informático da OA deverá ser feita progressivamente, já que terá custos elevadíssimos, na ordem dos milhões de euros.

    Além disso, os dois pontos que poderiam suscitar discussão eram inegociáveis para o Bastonário e para o CG: a questão dos lotes e a questão da participação dos Advogados Estagiários no acesso ao direito.


    O SISTEMA DE LOTES NO APOIO JUDCIÁRIO

    Finalmente porque a margem de manobra deixada pela Lei e pela Portaria do apoio judiciário era e é muito reduzida. As únicas grandes questões a regulamentar eram (e são), apenas, o número de lotes e a participação dos Advogados Estagiários. Ora, a primeira está obrigatoriamente prevista na lei e a segunda é para mim indiscutível, pois é uma proposta estruturante da minha candidatura a Bastonário.

    Na verdade, e quanto aos lotes, nada há a regulamentar. A lei é para cumprir e, enquanto for Bastonário, não permitirei qualquer violação da legalidade. Ora, como os lotes de processos estão previstos na Leis n.º34/2004, de 29 de Julho (com as alterações introduzidas pela Leis n.º 47/2007, de 28 de Agosto) e na Portaria n.º 10/2008, de 3 de Janeiro (com as alterações introduzidas pela Portaria n.º 210/2008, de 29 de Fevereiro), terá, portanto, de haver lotes de processos no sistema de acesso ao direito. Infelizmente, desde que a lei 34/2004 foi aprovada, todos os presidentes dos CD’s estiveram calados.

    Quando eu tomei posse herdei tudo isso e muito mais. Lutei com todas as minhas forças contra a vergonhosa Portaria do apoio judiciário, consegui alterá-la, mas não posso violar as leis que estão em vigor. Boas ou más – muito mais más do que boas – elas foram aprovadas quando eu ainda não era Bastonário.

    A própria Lei prevê o reexame da portaria, após um período de vigência que terminará no próximo ano. Aí sim, poderemos discutir toda a filosofia que lhe subjaz. Na altura própria iremos então suscitar um debate sobre essa questão. Os que agora queriam ser ouvidos para recusar o sistema de lotes nunca o exigiram antes a ninguém, nomeadamente quando foi publicada a Lei que os instituiu.

    Estiveram todos comodamente calados. Onde estavam e o que é que disseram os presidentes dos CD’s de Coimbra, de Évora, de Faro, de Lisboa, quando a Lei foi aprovada o ano passado? Todos estiveram calados, pelo menos até Janeiro deste ano, mas agora todos querem falar. Agora todos querem pronunciar-se sobre matérias da exclusiva competência do Conselho Geral. Dá a ideia que todos querem governar a Ordem quando só o Bastonário e o Conselho Geral foram eleitos para isso.

    Claro que o Conselho Geral fez opções e responderá por elas. Mas responderá, não perante outros dirigentes da OA, mas perante os Advogados portugueses. Essas opções ou são programáticas ou visam agilizar o sistema, pondo cobro a alguns escândalos, nomeadamente a favoritismos nas nomeações. Nós optamos pelo sistema que melhor garante a igualdade de todos os Advogados que queiram participar no apoio judiciário.

    O próprio sistema hierarquizará as inscrições (de acordo com a sua ordem de entrada) e procederá depois às nomeações segundo essa hierarquização. Pode-se discutir e criticar este método, mas ele é o que melhor garante mais transparência e, sobretudo, a igualdade de todos os Colegas interessados. Há certas práticas que vão acabar definitivamente.

    Outra coisa, porém, é saber quais os números e lotes que haverá e, principalmente, determinar quais os critérios para fixar esses números. Isto é matéria sobre a qual - aqui sim – o Bastonário e o Conselho Geral queriam ouvir os presidentes dos Conselhos Distritais e os presidentes das Delegações numa reunião realizada no passado dia 10 de Julho, no Salão Nobre da OA, em Lisboa. Mas, infelizmente, compareceram poucas Delegações e apenas o presidente do CD de Coimbra.

    ADVOGADOS ESTAGIÁRIOS E A PROTECÇÃO JURÍDICA

    Por fim, no que toca aos Advogados Estagiários, refira-se que eles vão poder participar no apoio judiciário de forma totalmente autónoma apenas na consulta jurídica e não em áreas onde, pela sua impreparação (afinal só são Advogados Estagiários), possam lesar direitos fundamentais dos cidadãos. Sempre fui contra o facto de eles participarem em diligências processuais, nomeadamente, em julgamentos, como participam os Advogados com larga experiência profissional. Entendo que os Advogados Estagiários só poderão participar nessas diligências através de substabelecimento do seu patrono, que os deverá orientar, superintender e acompanhar para suprir a natural impreparação do defensor estagiário.

    Sempre me pronunciei negativamente contra aquela possibilidade, fi-lo abertamente durante a campanha eleitoral como um ponto estruturante da minha candidatura. Portanto não era depois de eleito que eu iria mudar a minha posição. Essa proposta não foi uma promessa vã, mas sim um ponto programático sério que é para cumprir. E vai ser cumprido.

    Por outro lado, assim como não se pode regulamentar contra legem, também não se pode governar a Ordem contra o programa de quem venceu as eleições. Esses pontos foram discutidos exaustivamente durante a campanha eleitoral e não podem ser agora alterados sob pena de atraiçoar aqueles que o aprovaram, votando em mim.

    Que fique bem claro que para mim constitui um acto antidemocrático não cumprir um programa de acção que foi sufragado pela maior votação de sempre na história da Ordem. Eu não vou, depois de eleito, discutir o meu programa eleitoral, muito menos ignora-lo. Discuti-o durante a campanha eleitoral. Agora é tempo de o aplicar e fá-lo-ei, custe o que custar. Foi para isso que fui eleito.

    Os Advogados Estagiários não devem participar no apoio judiciário desde logo por respeito ao princípio constitucional de igualdade na protecção jurídica. Vejamos então algumas razões em concreto.
    1 – É óbvio que os Advogados Estagiários não estão preparados tecnicamente para poder defender os direitos das pessoas, sobretudo em julgamentos penais e em várias outras diligências como os primeiros interrogatórios de arguidos detidos, onde se decide a aplicação de medidas de coacção (prisão preventiva, obrigatoriedade de permanência na residência, caução, etc). Não se pode estar a aprender à custa dos direitos dos mais pobres, não se pode estar a aprender à custa da liberdade das pessoas. O apoio judiciário deve ser prestado por Advogados devidamente titulados pela OA e não por quem ainda está a aprender a ser Advogado;
    2 – O apoio judiciário não deve ser utilizado para financiar a formação da OA e muito menos para subsidiar os formandos, ou seja, os candidatos à Advocacia;
    3 – A formação dos estagiários não deve ser feita à custa dos direitos das pessoas que não têm dinheiro para contratar um Advogado, ou seja, não pode ser feita à custa dos pobres que são beneficiários do apoio judiciário;
    4 – É desprestigiante para a OA e para a Advocacia portuguesa o que se passa nos nossos tribunais com as defesas feitas por estagiários. São conhecidos casos em que pessoas foram condenadas a penas de prisão efectiva, tendo sido defendidas por estagiários que não tiveram qualquer iniciativa de defesa, que se limitaram a pedir justiça e que no final do estágio reprovaram. Há pessoas que foram para a cadeia defendidos por Advogados estagiários que não concluíram o estágio e optaram por outras profissões, pois, estavam na OA apenas a fazer tempo à espera do emprego que pretendiam. Tudo isso é vergonhoso para nós todos e eu quero acabar com esse estado de coisas;
    5 – Finalmente, quando há tantos Advogados sem trabalho, Advogados que pagam as despesas dos seus escritórios, que pagam as contribuições para a CPAS e as quotizações à Ordem, eu acho que devemos dar-lhe prioridade. Há milhares de jovens Advogados, sobretudo em Lisboa e no Porto que não têm trabalho (infelizmente não há clientes nem oficiosas para tantos Advogados) e eu entendo que esses devem ter preferência, também porque estão melhor preparados). De qualquer forma, os meus compromissos são com os Advogados e não com os que ainda o não são e muitos menos com aqueles que não o chegarão a ser. Enquanto eu for Bastonário vai ser cada vez mais difícil entrar na Ordem dos Advogados.

    AS REFORMAS SÃO PARA FAZER

    É altura de pôr alguma Ordem na Ordem e acabar com o descalabro a que estamos a assistir. Nos últimos anos o número de Advogados tem crescido à média de 1.500 por ano. Na campanha eleitoral de 2004 éramos cerca de 22 mil e hoje já somos mais de 26 mil Advogados em exercício. A formação é um bom negócio dentro da Ordem. Há muita gente que ganha bom dinheiro com isso, mas apresenta-se sempre como fazendo grandes sacrifícios pela OA.

    Essas pessoas não olham a meios para manter essa situação, incluindo os insultos contra mim. Mas eu não vou esmorecer. O meu programa de reformas é para cumprir e vou cumpri-lo. Responderei perante quem me elegeu e não perante quem foi eleito para outros órgãos e para desempenhar outras funções dentro da OA.

    Quando me convencer que não serei capaz de realizar o meu programa então deixo a Ordem e vou-me embora. Não me candidatei para manter o status quo. Não me candidatei para andar a pavonear-me pelo país como Bastonário, deixando ficar tudo na mesma. Candidatei-me e fui eleito para fazer reformas. E uma dessas reformas é acabar com o vergonhoso negócio da formação dentro da OA. Um negócio que só serve umas (poucas) centenas de dirigentes e formadores e no qual se gastam milhões de euros das quotizações dos Advogados e das «propinas» usurárias cobradas aos estagiários. E a única consequência visível desse negócio foi a de, em cerca de 20 anos, elevar o número de Advogados de cerca de 5 mil para mais de 30 mil.

    Só há duas razões para eu não realizar as reformas com que me apresentei às eleições. Ou eu desistir delas ou os Advogados se arrependerem de as terem aprovado nas últimas eleições. Se eu desistisse (seria a primeira em toda a minha vida que isso aconteceria), então era óbvio que os advogados se tinham enganado a meu respeito quando me elegeram; se os Advogados se arrependessem dessas reformas, então seria evidente que eu me enganara a respeito deles.

    Caros Colegas

    Peço a todos desculpa por os terem maçado com uma exposição tão longa sobre o que se está a passar. Não considero a situação grave do ponto de vista do funcionamento da OA e muito menos quanto à minha determinação em prosseguir com as reformas e continuar a denunciar o que está mal no nosso sistema de justiça.

    Chamo ainda a vossa atenção para os dois ou três pontos que se seguem em jeito de finalização.

    A COMPARAÇÃO ENTRE MAGISTRADOS E PIDES

    O primeiro tem a ver com as tentativas de intoxicação mediática a que continuaremos a estar sujeitos por parte de alguns jornais de Lisboa que durante a campanha eleitoral estiveram declaradamente a favor de um candidato derrotado. Recentemente, um tablóide lisboeta, o Diário de Notícias, chegou ao ponto de fazer uma manchete a propósito da minha remuneração, apresentando-a quase como se fosse um roubo à Ordem dos Advogados. Ou seja, uma proposta do meu programa e que fora apresentada de forma transparente durante a campanha eleitoral foi noticiada, em finais de Junho p.p., pelo Diário de Notícias, foi noticiada como se fosse um golpe oportunista do Bastonário depois de eleito.

    O segundo tem a ver com as notícias segundo as quais eu tinha comparado os magistrados a agentes da PIDE. É falso. O que se passou foi o que a seguir se descreve.

    Fui convidado pelo antigo Presidente da República, Dr. Mário Soares, para proferir uma conferência sobre a crise da Justiça, na Casa Museu João Soares, em Cortes, Leiria, a qual se realizou na passada 4ª feira, dia 9 de Julho. A conferência destinava-se sobretudo a empresários e membros da Liga de Amigos dessa Casa Museu. Os Organizadores também enviaram convites a alguns poucos Advogados, tendo comparecido cerca de uma dezena. Sintomaticamente, dois Colegas de Leiria, que tinham sido apoiantes de outro candidato nas últimas eleições, andaram a fazer pressões junto de Advogados para que não fossem a esse jantar.

    Pressões à parte, o jantar conferência contou com a presença de cerca de uma centena de pessoas e, ao analisar as causas da degradação que atingiu o nosso sistema judicial, apontei, como uma dessas causas, a cultura de poder dominante nos nossos tribunais, em vez de uma cultura de responsabilidade.

    Afirmei que, infelizmente (foi este o termo que utilizei), alguns magistrados, devido ao imenso poder que têm, preocupam-se mais em manter esse poder, preocupam-se mais serem temidos do que em serem respeitados. E disse que o mesmo se passou com os antigos agentes da PIDE/DGS nos últimos tempos do estado novo – tinham tanto poder que não se preocupavam nada com a opinião que as pessoas em geral tinham acerca deles. Foi apenas a este aspecto e que se referiu a dita comparação, sendo certo que realcei mesmo, a minha preocupação pelo facto de haver cada vez menos pessoas a respeitar os magistrados, justamente porque alguns deles estão mais interessados em que os cidadãos e até os Advogados lhes tenham medo.

    A badalada comparação entre magistrados e PIDES consistiu nisso e apenas nisso. O resto foi pura falsificação e manipulação.

    Repare-se que nunca há problemas com as declarações ou entrevistas que eu dou em directo, mesmo as mais contundentes. A polémica só surge quando as minhas posições são noticiadas ou transmitidas em diferido por alguns órgãos de informação. Temos, pois, de estar atentos porque alguns sectores estão dispostos a usar todos os meios, inclusive, a falsificação das minhas declarações para inviabilizar essas reformas.

    O terceiro ponto tem a ver com uma reunião conspirativa de alguns antigos Bastonários, apoiantes de um candidato a Bastonário que saiu derrotado. Alguns desses antigos Bastonários já me atacavam no próprio dia das eleições ainda antes de os votos estarem contados e outros nunca esconderam o desconforto por ter sido eleito Bastonário um Advogado que não pertence ao círculo da aristocracia tradicional de onde habitualmente saíam os candidatos vencedores.

    Garanto que tudo farei para sensibilizar esses ilustríssimos antigos bastonários sobre as virtudes da Democracia, principalmente das eleições livres e com voto universal e secreto. É que, como costuma dizer o nosso Colega João Pereira da Rosa (citando um antepassado seu): «qualquer homem é capaz de ganhar umas eleições; mas, para as saber perder é preciso ser-se um grande Senhor». Infelizmente na Ordem dos Advogados há muita gente que só está habituada a ganhar eleições e, por isso, não sabe perdê-las.

    Aliás, tem havido mais reuniões desse cariz, incluindo de membros de uma lista derrotada nas últimas eleições, provavelmente preparando-se, para aparecerem, na altura própria, para capitalizar a situação, ou seja, para me responsabilizar pela chicana que os seus apoiantes andam a fazer agora. Mas isso é matéria para desenvolver noutra ocasião.

    A DESTITUIÇÃO DO BASTONÁRIO

    Há uma questão que eu não quero deixar de abordar. Refere-se ao facto de alguns presidentes de Conselhos Distritais terem já falado em destituição do Bastonário. Trata-se de um método de acção psicológica bem conhecido que só pode afectar os medrosos ou os hesitantes. A mim não. Depois do processo disciplinar, surge agora essa nova «ameaça». Não me preocupo nada. Nunca estive tão tranquilo como agora. Quem está em cargos elegíveis tem de estar preparado para os abandonar. E eu estou. Só poderá desempenhar bem a suas funções quem não estiver agarrado a elas. Outros, porventura, estarão agarrados às funções que exercem, alguns mesmo há mais de 10 anos, consecutivamente.

    Mas em todo o caso, aconselho os Advogados portugueses a reflectirem sobre essa possibilidade. É bom que os Colegas comecem a pensar também nisso. Comecem a pensar se será necessário destituir os titulares de alguns órgãos da OA, incluindo, obviamente, o Bastonário ou então quem o quer impedir de levar a cabo o programa de reformas com que se apresentou às eleições e que os Advogados portugueses aprovaram com a maior votação de sempre na história da OA.

    Por mim não sou adepto desse método. Os meus princípios são os do respeito pelas regras da democracia e do respeito resultados das eleições democráticas. Pode ser que não seja necessário recorrer a outros métodos que não as eleições para apurar a vontade dos Advogados portugueses; mas também pode vir a ser necessário, e então é bom que todos estejamos preparados para isso, até porque a democracia não se esgota em eleições.

    Finalmente, quero reafirmar que podem contar comigo para levar a cabo as reformas que são urgentes na nossa Ordem para, nomeadamente, inverter o ciclo de massificação da nossa profissão, dignificar a Advocacia e fazer com que a Ordem esteja ao serviço de todos os Advogados e não apenas de alguns. Apesar de todos as adversidades, não desistirei.

    Lisboa, 14 de Julho de 2008

    A. Marinho e Pinto(Bastonário)

13 julho 2008

O segredos, os medos e os mitos

Leio no Correio da Manhã:

«Não é uma decisão surpreendente porque muitos a temiam. Os processos relativos à ‘Operação Furacão’, onde se investiga fraudes fiscais e branqueamento de capitais, vão poder ser consultados a partir de segunda-feira pelos arguidos, que podem ainda requerer diligências. O Ministério Público já fala no fim da investigação, enquanto as defesas se congratulam com o que dizem ser o cumprimento da lei.
"Era uma consequência possível e previsível. Sempre avisámos que isto podia acontecer, era uma das muitas leituras jurídicas do novo Código. Que estabelece prazos para a investigação não compatíveis com o combate à criminalidade económica e financeira", disse ao CM António Clunny, do Sindicato dos Magistrado do MP, escusando-se a comentar as consequências concretas no processo.»

É preciso desmistificar o segredo de Justiça e responsabilizar os funcionários e os magistrados que se escudam nele para não cumprirem as suas obrigações.
O grande drama da justiça criminal está em que, nas mais das vezes, os processos ficam parados, sem nenhum diligência durante dias e dias e os arguidos vêem sua imagem degradar-se diariamente sem nenhuma possibilidade de defesa.

O segredo de justiça não serve para mais nada, para além de proteger o laxismo da investigação. A verdade descobre-se questionandos as pessoas e exigindo-lhes resposta na hora, taco a taco. E isso nem os magistrados nem as policias o desejam.

Continua o jornal:
«Os processos relativos à ‘Operação Furacão’, onde se investiga fraudes fiscais e branqueamento de capitais, vão poder ser consultados a partir de segunda-feira pelos arguidos, que podem ainda requerer diligências.»
E digo eu: até deveriam poder ser consultados pelos jornalistas, para que o país tenha a noção de que uma coisa é que o sistema injecta nos jornais e outra o que acontece na realidade.
E diz mais:
« O Ministério Público já fala no fim da investigação, enquanto as defesas se congratulam com o que dizem ser o cumprimento da lei. "Era uma consequência possível e previsível. Sempre avisámos que isto podia acontecer, era uma das muitas leituras jurídicas do novo Código. Que estabelece prazos para a investigação não compatíveis com o combate à criminalidade económica e financeira» disse ao CM António Clunny, do Sindicato dos Magistrado do MP, escusando-se a comentar as consequências concretas no processo.
Este monarca sindical anda, literalmente a gozar connosco.
Porque raio há-de acabar a investigação? Ou pura e simplesmente não havia investigação e agora vai descobrir-se isso.
O fim do segredo de justiça justifica precisamente o contrário: que se incremente a investigação, pois que haverá que proceder às diligencias pedidas pelas defesa, as quais já poderia ter sido realizadas há muito tempo se não houvesse segredo.
O argumento de Cluny cairá no ridiculo no dia em que alguém decidir auditar os grandes processos e concluir que o segredo apenas para incobrir o laxismo.
O que a experiência nos diz é que, quando há segredo, há dias, semamas, até meses sem qualquer trabalho de investigação.
«Fontes contactadas pelo nosso jornal garantem que as consequências da decisão serão devastadoras para a investigação. Não podendo fechar o processo, os magistrados serão obrigados a dar conta aos arguidos das diligências que estão a ser feitas. O que poderá permitir, em muitas casos, que o rasto do dinheiro seja apagado, já que na maioria das situações investiga-se a fuga aos pagamentos de impostos associada à transferência de dinheiro para paraísos fiscais.
Ainda segundo o CM apurou, poderá haver outra consequência ainda mais nefasta para a investigação. Tendo o Tribunal da Relação entendido que desde Dezembro que o segredo de justiça devia ter sido levantado, pode agora pôr-se um problema de nulidade da investigação feita a partir dessa data.»
Finalmente vai haver condições para a descoberta da verdade.
Em nenhum pais decente um processo deste tipo se arrasta por tanto tempo.

12 julho 2008

A grande entrevista de Marinho Pinto

O bastonário António Marinho não é homem de recusar combates e desafios.
No dia 10 de Julho deu uma grande entrevista a Judite de Sousa. Uma entrevista que ficará nos anais da advocacia portuguesa.
Com uma entrevistadora manifestamente parcial e comprometida, que o encarou como um inimigo público, Marinho não vacilou num único momento e disse, com uma extrema precisão coisas gravíssimas que ninguém tem a coragem de dizer em público.
Vale a pena ver a entrevista que está publicada no endereço mms que se publica a final.
A entrevistadora começou por apresentar Marinho como um homem contestado pelos magistrados, pelos advogados e pelos polícias, o que é, no mínimo, um exercício de mau jornalismo.
Ao longo de toda a entrevista procurou branquear e encobrir o mau funcionamento do sistema judiciário, como se fosse uma advogada do status quo.
Fazendo que não percebia o sentido da alusão aos agentes da PIDE, a entrevistadora perguntou a Marinho Pinto porque razão comparava os magistrados a agentes da PIDE. Pacientemente o bastonário explicou que há hoje um desrespeito generalizado perante a justiça porque alguns magistrados de portam nos tribunais como os agentes da PIDE no tempo do Estado Novo.
«Os agentes da PIDE estavam convencidos de que eram muito respeitados. Mas não: as pessoas tinham-lhes medo e por isso os cumprimentavam, faziam-lhes vénias».
A comparação é feliz e nada tem de ofensivo. Há alguns magistrados que até mudam de voz quando vestem a beca; e a postura que os cidadãos (e entre eles muitos advogados) perante eles não é de respeito; é de medo.
Nisso tem razão Marinho Pinto. Pena é que não se tenha voltado para dentro da Ordem e considerado que essa cultura de medo é incrementada pela própria Ordem e por um sistema disciplinar que se transformou num cabide de emprego e num negócio para advogados que ganham dinheiro a montar processos contra os seus pares, aliás em condições da mais duvidosa legalidade.
Hoje, qualquer advogado sabe que se for um pouco mais forte na defesa leva um processo disciplinar; e depois lá tem os abutres dos conselhos disciplinares, à espera de ganhar uns tostões com a castração de quem tem coragem.
Uns miseráveis, que deveriam ser expulsos da Ordem, por perverterem completamente os valores que enformam.
Hoje não há medo apenas dos juizes; há medo também desses abutres e há um profundo desrespeito pelos conselhos de deontologia, que se demitem das suas obrigações, apesar de os seus membros serem eleitos.
Tenho que aplaudir as palavras de Marinho Pinto, lastimando apenas que ele ficasse muito longe daquilo a que deveria ter chegado. Se a Ordem não tivesse desenvolvido, ao longo dos últimos anos uma cultura de respeito subserviente pelos magistrados não teriamos chegado à situação miserável a que chegamos.
Se a Ordem não tivesse desenvolvido, ao longo dos últimos anos, em sentido contrário ao que decorre da Constituição, uma cultura proibicionista da critica que a Justiça merece não teriamos chegado à pouca vergonha a que chegamos, nomeadamente nos tribunais de recurso, completamente omissivos quando o advogado se esforça.
É gravissima a questão colocada por Judite de Sousa nestes termos: «O Sr. Dr. não acha que a comparação é excessiva» (...) e capaz de ofender de forma grave os magistrados?
O que vem a ser isto? Um convite à censura, em prime-time? Chegamos ao tempo das opiniões excessivas, ou pretenderá Judite de Sousa que a comparemos alguns jornalistas do tempo do fascismo?
Que terrivel ofensa à Democracia esta de uma jornalista de uma grande televisão insinuar que pode haver excessos em termos de opinião.
A opinião é livre e só se combate com outra opinião igualmente livre... Lastimavelmente ainda há quem não tenha percebido isto.
Marinho Pinto desfiou exemplos incomodativos, falou de dois livros com dezenas de casos de atrocidades, com a jornalista mais preocupada em o conter ou em o achincalhar do que em construir um diálogo seremo que teria levado o bastonário a ir mais longe.
Criticou o sindicalismo no judiciário e denunciou o facto de o Parlamento ter nomeado para o Conselho Superior da Magistratura o advogado do sindicato dos magistrados do Ministério Público. Com a maior insensibilidade, Judite replicou que isso era um problema da Assembleia da República, quando é um problema de todos nós.
Resposta brilhante ao desafio para um debate com o presidente do Sindicato dos Juizes. O bastonário da Ordem dos Advogados não pode discutir com sindicatos. Aceita discutir com o Conselho Superior da Magistratura, mas não com o sindicato, porque a função dos sindicatos é reclamar mais dinheiro e menos trabalho.
«Todos os dias recebo queixas de cidadãos relatando-me verdadeiras atrocidades»- disse Marinho. Todos nós sabemos disso e sabemos que não é de hoje. Aliás, no bastonato de José Miguel Júdice foi até montada uma «galeria de horrores»... Mas tudo ficou por aí.
Falou depois da promiscuidade entre o Ministério Público e a Magistratura Judicial, com Judite de Sousa a tentar humilhá-lo e desvalorizá-lo, acusando-o de uma cruzada.
«Os juizes para os quais se recorre são sócios do mesmo sindicato dos juizes recorridos» - alegou Marinho Pinto, para sustentar a falta de credibilidade dos recursos.
Os policias são para estar na rua - disse ainda Marinho Pinto. E estão em gabinetes... Judite sugeriu que... agora ele bastonário. Ao que Marinho Pinto ripostou que não se cala, porque a sua função é criticar o que está mal.
Judite pergunta a seguir: «O Sr. Dr. não tem medo de ser processado por essas afirmações?». E resonde ele: «processem-me que eu tenho os factos todos».
Neste passo da entrevista sentimos a razão da referência à PIDE. Este país volta a estar cheio de medo; e se um homem como Marinho Pinto fala mais alto recebe logo apelos à contenção.
Sindicalismo dos magistrados, regalias dos magistrados, isenções de impostos, desigualdades, com Judite de Sousa a perguntar-lhe se isso não era populismo, ou seja recorrendo ao adjectivo para lhe abafar a mensagem.
Miséria de jornalismo esta... Um vergonha, com manifesta ofensa de valores estruturantes do jornalismo.
O entrevistador deve fazer perguntas e não extrair conclusões ou assentar perguntas em conclusões facticas não apuradas.
«Não fazendo os estagiários as oficiosas quem as vai fazer»? - perguntou Judite de Sousa. Respondeu Marinho que seriam «os advogados». Mas parece que a loira não percebeu que há uma diferença entre um estagiário e um advogado.
Implicitamente Judite de Sousa tomou a posição da defesa do exercício do patrocinio pelos estagiários. Marinho respondeu-lhe perguntando se gostava de ser operada por um estagiário de cirurgia.
O bastonário disse - julgo que pela primeira vez - uma coisa que ando a dizer há anos: que há grandes interesses de alguns colegas no negócio da formação. «Este mercantilismo envergonha-me»...
Quando veio da CEE dinheiro para a formação, a Ordem mudou o modelo de estágio, passando a dar aulas aos estagiários, para os seus dirigentes ganharem dinheiro. Foi assim, com esta crueza que Marinho disse a verdade que muita gente não quer ouvir. Aliás, só quem pouco trabalho é que tem tempo para dar aulas ou para entrar nesse mercantilismo, aliás sem nenhum controlo de qualidade.
Muito importante esta entrevista. Em coerência com ela, Marinho vai ter que mexer em muita coisa...

mms://195.245.168.21/rtpfiles/videos/auto/gentrevista/gentrevista_1_10072008.wmv

A guerra entre Marinho e o Diário de Notícias

No dia 19 de Junho, o «Diário de Notícias» chamou Marinho Pinto para manchete....

«Marinho recebe 40 mil euros em 2011
Bastonário deliberou em pleno conselho geral uma regra que lhe garante receber seis ordenados no final do mandato, em 2011, 'de uma vez só', descrito como um subsídio de 'reintegração' na profissão».

Um título pincante, sensasionalista e inverídico, pois que o bastonário não deliberou.

Lê-se a seguir:

« Acta do Conselho Geral datada de 18 de Janeiro de 2008
António Marinho e Pinto chegou e cumpriu. Ao décimo dia em que exercia o cargo de bastonário da Ordem dos Advogados (OA), a 18 de Janeiro de 2008, decidiu instituir uma remuneração fixa mensal para o cargo pelo qual tinha sido eleito em Novembro de 2007.
O valor? Equivalente ao do procurador-geral da República, cerca de 6 mil euros. Mas não ficou por aqui e levou a votação, no primeiro Conselho Geral a que presidiu, uma cláusula que obriga a que "aquando a cessação de funções exercidas no regime de exclusividade de bastonário, este receberá o equivalente a metade da compensação anual referida".
Ou seja, em 2011, quando deixar o cargo de bastonário dos 25 mil advogados de Portugal, Marinho e Pinto, eleito pela larga maioria de uma advocacia "deprimida e não de luxo", conforme ele próprio explicou em plena fase eleitoral, irá receber quase 40 mil euros, de uma vez só, definido como um subsídio de reintegração na função de advogado.
Quer a remuneração mensal, quer este subsídio de reintegração são inéditos na Ordem, instituição com mais de 80 anos.
"Facto inédito e sem precedentes", explicou uma fonte próxima daquela estrutura, que preferiu o anonimato. O valor em causa será retirado dos cofres da própria Ordem dos Advogados, que são preenchidos pelas quotas pagas por advogados, muitos deles em situações profissionais precárias.
Em média, os advogados portugueses recebem cerca de mil euros mensais pelos seus serviços. Ao que o DN apurou, a cláusula da remuneração foi votada por unanimidade pelo Conselho Geral. Já a cláusula de remuneração de seis meses de ordenado, no final do mandato, foi aprovado com dois votos contra e duas abstenções.
O Conselho Geral é o órgão a que o bastonário preside na estrutura e foi eleito pela lista de Marinho Pinto.
Mais: os presidentes dos conselhos distritais da Ordem não foram consultados nesta matéria. Foram apenas notificados, via fax, das novas condições remuneratórias do bastonário.A exclusividade do exercício do cargo de bastonário e respectiva remuneração foi, recorde-se, uma das bandeiras de Marinho e Pinto durante a campanha eleitoral.
Até à hora do fecho desta edição, o DN tentou insistentemente falar com o bastonário, sem sucesso, e contactou o seu assessor de imprensa, mas também ele não conseguiu chegar à fala com o bastonário. Marinho e Pinto foi o advogado demitido por José Miguel Júdice, quando este era bastonário, da Comissão dos Direitos Humanos, por ter criticado, em plena Assembleia da República, as regalias que a classe da magistratura reclamava para si.»

Trata-se de uma peça cheia de venenos, misturando informação com opinião e, sobretudo, procurando afectar a imagem de Marinho Pinto.
O jornalista ocultou, deliberadamente, dois elementos essenciais da notícia: primeiro que tudo isto fazia parte do programa eleitoral de Marinho Pinto.
Segundo que a medida foi aprovada pelo Conselho Geral que é composto por vinte membros.
No domingo, dia 6 o editorial do DN foi dedicado à justiça:

Diz assim:
«O estado da justiça em Portugal assemelha-se a um perigoso buraco negro que absorve quem lhe passa por perto.
Já sabíamos que numerosos agentes da PSP trabalham em part-time como porteiros/seguranças de discotecas.
Agora passamos a saber que há inspectores da Judiciária que arredondam o salário mensal fazendo uns favorzinhos (cedência de meios da PJ) à devassa da vida privada de cidadãos praticada por detectives privados.
No imperdoável caso Maddie, a incompetência e as lutas internas que dilaceram a polícia de investigação foram postas a nu e transmitidas em directo para toda a Europa.
A maneira ardilosa como Vale e Azevedo tem trocado as voltas à justiça portuguesa apenas contribuiu para desprestigiar mais os tribunais.
Sendo a competência do Ministério Público seriamente comprometida em casos célebres como o da "fruta" do "Apito Dourado", arquivado por notória inabilidade da acusação.
Já são muito poucos os portugueses que respeitam um sistema congestionado, que não consegue responder com qualidade e em tempo útil aos problemas dos cidadãos e empresas.
A justiça continua num caos. E não foram as mudanças dos códigos que a trouxeram à tona. (...)»

É um editorial violentíssimo,

O Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, não vê qualquer razão para a polémica pelo facto de receber seis mil euros por mês para desempenhar o cargo.
tamanho da letra

Eduardo Caetano, na RTP/2, escreve no dia 29 de Junho:
«O Diário de Notícias fazia este domingo machete com a notícia de que o novo Bastonário receberia 6 mil euros por mês da Ordem dos Advogados. No desenvolver da notícia fica o leitor a saber que em 18 de Janeiro de 2008, o Conselho Geral da Ordem dos Advogados aprovou por unanimidade o exercício em exclusividade do cargo de Bastonário da Ordem dos Advogados bem como a atribuição a título remuneratório mensal da quantia de cerca de 6 mil euros. O órgão da associação representativa dos Advogados portugueses decidiu ainda a atribuição a título de reintegração da quantia equivalente a seis subsídios mensais ao Advogado que, deixando de exercer no final do mandato a função de Bastonário, regresse à vida profissional, um valor que rondará os 36 mil euros.
Marinho e Pinto insurge-se contra o facto de apenas agora passados que são oito meses sobre a sua eleição e outros tantos sobre a decisão agora revelada que o jornal da capital faça machete com essa notícia deixando pairar, na sua opinião, a ideia de que ela (notícia) surge agora como se fosse uma desagradável surpresa para os Advogados.
Marinho Pinto classifica a notícia como sendo parte de uma estratégia de ataques vindos do exterior e do próprio interior da Ordem dos Advogados de quem ainda não se convenceu de que o actual Bastonário vai de facto cumprir as promessas eleitorais e que considera que falhou se as não conseguir levar avante.
Quanto à justificação dos ataques entende que eles vêm de quem já não tem coragem para o atacar pela frente optando agora pelo anonimato. Considera no entanto, justificável, já que está a mexer, segundo diz, com muitos interesses instalados e as pessoas não gostam disso.
Em relação ao Diário de Notícias, jornal em que este domingo foi tornado pública a notícia, considera normal vindo de um jornal que segundo disse em entrevista exclusiva à RTP (ver vídeo anexo), apoiou na campanha eleitoral de uma forma despudorada um outro candidato e que da única vez que fez Machete com a sua candidatura foi para a titular “Marinho e Pinto arrasa advogados”.
Marinho e Pinto relata mesmo um caso que se passou com esse jornal durante a campanha eleitoral que justifica os ataques agora vindos a público. Durante a campanha eleitoral, o outro candidato a Bastonário da Ordem dos Advogados e que seria alegadamente apoiado pelo DN, terá feito uma proposta de colocar um advogado 24 horas por dia em todas as esquadras do país e em todos os quartéis do país. Consultado Marinho e Pinto sobre essa proposta ele terá afirmado que ela era irrealista, demagógica e populista.
O jornal terá noticiado na sua edição seguinte que o actual Bastonário aprovava a proposta do seu rival. A decisão fazia parte das propostas eleitorais enquanto candidato e foram sufragadas pela maioria dos Advogados - e lembra que nunca antes, em anteriores eleições, foram tantos os votos contabilizados, o que na sua opinião aborrece muita gente.
Não foram apenas sufragadas pela maioria dos Advogadas, foram decisões tomadas por um òrgão colegial - o Conselho Superior da Ordem dos Advogados -, decisão em que aliás, informa não ter participado pois de acordo com a própria acta se retirou para receber a ministra da Justiça de Timor - Leste, e depois aprovada novamente pelo Congresso de Advogados, órgão máximo dos Advogados portugueses.
O valor em causa é o correspondente aproximadamente ao valor das remunerações do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e do Procurador-Geral da República por serem cargos que se equivalem em termos de dignidade e importância. O valor do subsídio de reintegração após abandono do cargo de Bastonário ao fim de três anos de mandato é justificado com a dificuldade que aquele que o exerceu em exclusividade sentirá para voltar ao exercício efectivo da avcocacia de que esteve afastado durante todo esse tempo com todas as desvantagens inerentes. »

No sábado, 12 de Julho, o director do jornal, João Marcelino dedica o editorial a Marinho Pinto.
Apela aos advogados para o chacinarem, para não se reverem nas palavras dele, para o abandonarem:

«Talvez por ter sido jornalista durante muitos anos (no Expresso), António Marinho Pinto, actual bastonário da Ordem dos Advogados, sabe preparar as suas intervenções públicas.
Para cada entrevista leva sempre uma frase, uma ideia, que fica. Que choca. Que tem citação. Dou alguns exemplos.
Abordando a violência doméstica, nomeadamente a que é exercida sobre as mulheres, veio defender que esta deveria deixar de ser um crime público.
Mais: havia, e portanto ainda haverá, um "feminismo entranhado" na lei.
Quanto ao processo Casa Pia, entendeu informar- -nos (sem dar qualquer prova, era apenas a sua convicção...) que houve "uma tentativa de decapitar a direcção do PS".
No que respeita à Polícia Judiciária, disse a certa altura que esta polícia "não está na dependência do Ministério Público, mas sim do Governo".
Falando sobre corrupção alertou-nos para a existência de crimes cometidos "impunemente" por pessoas com cargos de relevo na hierarquia do Estado.
Analisando a actividade das forças policiais, PSP e GNR, afirmou que elas "não estão a cumprir as suas funções". Porquê? Porque durante o dia "os polícias amontoam-se nas esquadras" das grandes cidades, mas à noite "estão completamente abandonadas" e muitas vezes "entregues a jovens inexperientes".
A culpa, neste caso, é dos "sindicatos".
Referindo-se aos deputados, mas não só, chegou a dizer que "é preciso um sobressalto cívico para que caiam alguns parasitas, algumas bactérias que existem nas estruturas da República".
Sobre o funcionamento dos tribunais, emitiu a opinião de que nada mudou desde o tempo do marquês de Pombal, sendo que os magistrados são temidos mas não respeitados.
E repetiu agora, na entrevista a Judite de Sousa, na RTP, a comparação que já fizera no mês passado: eles, os magistrados, podem ser comparados com os agentes da antiga PIDE.
Não cito mais, nem sequer a defesa que Marinho Pinto também fez de Vale e Azevedo. Acho que, para ilustrar a realidade, estas "pérolas" chegam.
Um qualquer português que fizesse 10% destas acusações genéricas e insultuosas ficaria com problemas para gerir nos próximos dez anos em sede da Justiça. Mas Marinho Pinto, servindo-se de um cargo de relevo à frente de uma classe profissional prestigiada, obviamente traçou um caminho e definiu uma estratégia: enquanto os processos vão e vêm, folga ele com a legítima indignação dos visados.
O bastonário sabe, como qualquer bom populista e demagogo, que "o povo" gosta disto, deste caldo de acusações medíocres e cobardes contra tudo o que cheire a "poderosos".
E, quanto à matéria de facto, ele também sabe, com recurso à experiência de advogado, que há ali um largo caminho para, na devida altura, fazer passar como legítima convicção pessoal algumas destas acusações.
Quanto à violência sobre as mulheres ou às violações às crianças (espero que para Marinho Pinto o processo Casa Pia não tenha sido uma simples invenção...), pode ainda ficar descansado. Nenhum dos milhares de ofendidos se vai queixar destas afirmações gratuitas, de uma insensibilidade social que assusta.
Sinceramente, admira-me a passividade com que os advogados vão assistindo a estas diatribes. Percebo que, numa classe dominada pelos grandes escritórios, Marinho Pinto tenha ganho a função fazendo de cruzado da maioria dos profissionais do sector. Mas neste momento não entendo o silêncio.
Custa-me a admitir que os advogados se revejam nestas declarações brutais, que alimentam o alarme social - e que são cobardes porque estendem sobre classes inteiras generalizações que podem, num caso ou noutro, ter alguma razão particular.
E que seriam bem-vindas se viessem com nomes e datas. Quando tudo isto começou, José Miguel Júdice fez um aviso. Achei que estava a ser exagerado. Passado este tempo tenho forçosamente de lhe dar razão. Marinho Pinto já passou todos os limites.
Pesquisei a Net com o termo PIDE e, associado aos resultados, apareceram-me dois nomes do Portugal que temos. Além de António Marinho Pinto... Alberto João Jardim. Ou seja, com o Google, e utilizando o isco certo, é muito fácil apanhar um demagogo...»
Estamos perante uma campanha de imprensa ad hominem. É como se o jornal considerasse que o bastonário entrou numa área que lhe é reservada...

Bastonário rejeita contenção

Marinho Pinto está a reagir como um animal acossado.
É o instinto da sobrevivência a funcionar...
Leio no «Correio da Manhã»:


11 Julho 2008 - 15h00

Justiça: Bastonário dos advogados ignora apelos de contenção
António Marinho Pinto compara juízes à PIDE:
"Não é nas leis que está o problema da Justiça, mas nos magistrados."
As palavras são do bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, que, na quarta-feira à noite, em Leiria, voltou a atacar os magistrados, comparando-os mesmo aos agentes da antiga PIDE/DGS.
"Passa-se com alguns magistrados o mesmo que se passava com os agentes da PIDE: sabem que ninguém os respeita mas são temidos", afirmou o advogado de Coimbra durante um jantar-conferência sobre a ‘Crise da Justiça’.
Apesar dos apelos à contenção, por parte do próprio Conselho Superior da Ordem dos Advogados, no parecer que arquivou um processo disciplinar, e do corte de relações institucionais por parte dos juízes com o bastonário, Marinho reiterou os duros ataques aos magistrados, afirmando ainda que "o sindicalismo na magistratura é uma aberração. Apenas procura mais dinheiro, menos trabalho e mais poder".
As declarações do bastonário mereceram uma reacção do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, que considerou que "as atitudes do dr. Marinho são um problema que cabe à Ordem dos Advogados resolver, a bem do prestígio da própria advocacia".
O CM tentou também obter um comentário de Noronha Nascimento, presidente do Conselho Superior da Magistratura, o que não foi possível até ao fecho da edição. Já nos blogues jurídicos, na internet, as palavras de Marinho provocaram uma chuva de críticas.

CARTAS ABERTAS PARA PEDIR ELEIÇÕES

O clima de ‘guerra’ aberto pelos sucessivos ataques de Marinho Pinto aos juízes é um dos motivos que mais críticas tem gerado entre os advogados. Numa das muitas cartas que têm sido enviadas aos órgãos da Ordem, o advogado Sousa Macedo, com quase 50 anos de profissão, afirma que "nunca, como hoje, a Ordem e o seu bastonário se apresentaram como parte dos problemas", sugerindo a convocação de um congresso extraordinário. Ideia semelhante foi lançada por um advogado do conselho distrital de Coimbra, noutra carta a que o CM teve acesso, que apela à aprovação de uma moção para convocação de eleições antecipadas, o que seria inédito na história da Ordem dos Advogados, apenas sete meses depois de Marinho ter sido eleito bastonário.

O QUE FOI DITO

Não é nas leis que está o problema da Administração da Justiça, mas nos magistrados. Um bom magistrado faz boa Justiça mesmo com más leis.
O sindicalismo na magistratura é uma aberração. Apenas procura mais dinheiro, menos trabalho e mais poder. É uma das causas para a degradação do sistema judicial.
Passa-se com alguns magistrados o mesmo que se passava com os agentes da PIDE: sabem que ninguém os respeita, mas são temidos.
Nos tribunais está tudo organizado de acordo com os interesses de quem lá trabalha.
(...)
Muito interessante é ler os comentários dos leitores, que reproduzo na integra e sem correcção de grafia:
12 Julho 2008 - 13h15
lcm almanha
parabens DR:MARINHO PINTO,Portugal precisa de DOUTORES como o SENHOR,assim tenho orgulho da ser portugues, mas com essa cambada de tachos oportunistas no poder tenho vergonha de ser portugues,e medo de viver em portugal dos pequeninos.Vivo no estrangeiro a 30 anos,e nao tenho saudades de portugal.

12 Julho 2008 - 12h36
Hugo Martins
O Sr. Bastonário apenas disse verdades e das Grandes. Deveria ter dito ainda mais, relativamente ao poder Judicial que é isto: Os Senhores Procuradores e os Srs. Juízes actuam como uns DEUSES na Terra e afinal até o são. Isto está assim porque eles o permitem. Força Sr. Bastonário, não se deixe intimidar, o POVO está consigo, estamos fartos deste PODER JUDICIAL, Arogante, prepotente

12 Julho 2008 - 09h06
BOKAS
É destes que eu gosto; sem papas na lingua! Parabéns Dr.! Abra mais o livro para se ficar a saber a podridão que paira cá em Portugal.

11 Julho 2008 - 20h36
M. Santos
É impossível haver quem seja mais claro e verdadeiro em Portugal. Se os Deputados da Assembleia da República que ali recebem um alto vencimento tivessem a coragem deste Senhor a nossa "democracia" estava a ser de facto uma Democracia. Força Senhor Doutor! Que a voz não lhe doa, e o visados não o silenciem...

11 Julho 2008 - 20h27
j.silva
Parabens pela coragem de diser as verdades , parabens pela frontalidade , já éra tempo de aparecer alguem com coragem de diser o que os portugueses sabem , pensam e sentem .Parabens doutor Antonio Marinho Pinto e obrigado

11 Julho 2008 - 19h20
Alves
Até que emfim aparceu aguém para denunciar o que toda a gente sabe, é pena viver num Mundo só de cobardes.

11 Julho 2008 - 18h57
Sara
Senhor Bastonário, Votei em si, e se fosse hoje voltaria a votar. Tenho orgulho no Senhor. Não se deixe calar!

11 Julho 2008 - 18h55
marcos fernandes
de-lhes,mais,sr, bastonario!... só tenho pena que não haja mais pessoas a fazer o mesmo!...

11 Julho 2008 - 18h53
A. Pereira
FORÇA, os portugueses estão consigo. Você denunciou o que ninguém teve t. para tal. E reparem se o desmentem! Claro que não! Porque só disse verdades. Os que fazem as suas próprias leis tenham vergonha de serem portugueses desprezíveis e de usarem os poderes que têm para abusar e desgraçar ainda mais este pobre país. Um dia espero que a divina justiça vos dê o que merecem. Conseguem dormir em páz?

11 Julho 2008 - 18h51
afonso
Os juizes e magistrados sendo um orgão de sobrania não podem ser sindicalizados isto é ridiculo

«Empresas públicas roubam cidadãos»

Jornal de Notícias de 4 de Julho de 2008

"Marinho Pinto considera que algumas empresas públicas "são uma espécie de cartel para sacar dinheiro aos cidadãos". Algumas parecem "aquele velho vigarista de feira que vendia banha da cobra, utilizando os esquemas mais enganadores".
Sobre a Justiça, o bastonário da Ordem dos Advogados - que "disparou" em várias direcções - voltou a reclamar "uma cultura de respeito nos tribunais em vez de uma cultura de poder exercido por alguns magistrados que parecem crianças".
Convidado pelo Movimento Cívico de Paços de Ferreira a abordar o tema "Direitos de Cidadania versus Poder Económico", o representante dos advogados portugueses não poupou, ontem à noite, "epítetos" a diversos poderes instalados.
O país assiste, disse, a "roubos institucionalizados e legalizados" por parte de algumas empresas públicas que praticam "taxas e preços especulativos, muito acima do livre jogo da oferta e da procura de mercado". E, frisou, "não há sequer um sistema de Justiça, que ponha cobro e saiba moralizar esta situação porque o sistema público está organizado, não em função das pessoas, mas dos interesses das empresas".
O país vive "momentos terríveis de criminalidade, pobreza e miséria que arrepia os profissionais mais experientes", mas "se ouvirmos discursos de alguns responsáveis parece que estamos numa paraíso".
Do ponto social, dois terços das famílias portuguesas trabalham 20 a 30 anos para pagar o que devem; e cerca de 80% da população está a trabalhar para bancos "que não produzem nada". "Muitos dos responsáveis que nos governaram nos últimos anos sabiam disso e sabiam que isto iria conduzir a uma situação como a actual".
Nesse sentido, "a Economia funciona como casino: ganha-se ou perde-se. Quem ganha é quem der o golpe das acções e das especulações".
Ao longo de uma hora, Marinho criticou violentamente que ex-governantes passem a integrar os quadros de empresas privadas com quem negociaram antes.
Ainda quanto ao desrespeito pelo cidadão, o bastonário referiu o "Caso Esmeralda" como paradigmático, defendendo o sargento Luís. "Os pobres não podem ir a tribunal, primeiro são maltratados e segundo serão defendidos por um candidato a advogado".
As notícias são o que os jornalistas fazem. Não acredito na fiabilidade desta. Seria muito interessante confrontá-la com a gravação...

Marinho Pinto defende Vale e Azevedo

Site do Rádio Clube (27/6/2008):

Marinho Pinto defendeu ontem Vale e Azevedo.
O Bastonário da Ordem dos Advogados diz que o antigo presidente do Benfica tem razão de queixa da justiça portuguesa. Segundo Marinho Pinto, Vale e Azevedo foi humilhado na altura em que foi detido e o julgamento terá sido feito por um juíz que pertencia à oposição interna a Vale e Azevedo no Benfica. As declarações foram feitas na Assembleia da República.
Isto é gravíssimo. Se é verdade é uma vergonha. Se for mentira uma vergonha é...
Estes problemas não se resolvem mandando calar o homem.
É preciso apurar se Vale e Azevedo foi julgado por um juiz que pertencia à oposição interna que tinha no Benfica.
Vale a pena ouvir as declarações do bastonário em http://radioclube.clix.pt/noticias/body.aspx?id=9861

A semana de Marinho Pinto

No dia 6 de Julho escrevia o Jornal de Notícias, com a assinatura de Tiago Rodrigues Alves:

«Marinho Pinto em ruptura com as distritais da Ordem - Contestação ao estilo aumenta e estruturas poderão tomar posição crítica sobre o bastonário»

Em sutítulo, o jornalista usa um método clássico para lançar uma ideia: a da destituição. Quando nada existe, passa a existir dizendo-se que não existe.
A noticia, que reproduz em boa parte outra do Sol, vem envolta em clima de «golpe de estado».

«Conselhos distritais estão em "ruptura total" com o bastonário mas a hipótese de destituição nunca foi levantada. Marinho Pinto diz que não muda de estilo e que, mesmo com críticas, vai cumprir o programa sufragado.»

E prossegue:

«A possibilidade de se iniciar um processo de destituição do bastonário da Ordem dos Advogados (OA), Marinho Pinto, foi ontem lançada pelo semanário "Sol". Todavia, apesar de os Conselhos Distritais (CD) da OA estarem frontalmente contra a actuação do bastonário, e, não obstante uma ou outra voz poder ter aflorado essa possibilidade, "a destituição nunca se discutiu", afirmou ao JN uma fonte de um CD.
Se a destituição nunca esteve em cima da mesa nos encontros entre os vários CD, já as críticas a Marinho Pinto foram o prato principal. "Actualmente, há uma total ruptura entre o bastonário e os CD", declarou a mesma fonte.
O presidente do CD de Lisboa, Carlos Pinto de Abreu, explicou que um dos principais pontos de discórdia foi o quebrar da tradição de convidar os CD para o Conselho Geral (CG). "Uma coisa é nós passarmos directamente a nossa mensagem aos membros do CG, outra é reunirmo-nos com o bastonário e ele, depois, transmitir a nossa mensagem da forma que entender", declarou.

O advogado disse ainda que Marinho Pinto "falta à verdade quando diz que as CD não fazem propostas, bastando consultar as actas da CD de Lisboa que estão na Internet para confirmar as várias propostas efectuadas". Estas posições dos CD irão ser tornadas públicas amanhã, através de um comunicado.
Marinho Pinto, confrontado com estas críticas, disse ao JN que vai "cumprir o programa eleitoral que foi apresentado e sufragado com a maior votação eleitoral de sempre".

O bastonário reafirmou que nunca viu "uma proposta séria ou a introdução de um argumento válido por parte da CD".
No entanto, Marinho Pinto crê que o verdadeiro motivo para as críticas que agora vêm a público é o facto de ele estar a mexer com o modelo de formação dos estagiários. Pinto de Abreu refuta esta explicação: "esse tema nunca foi discutido entre nós, portanto, não podemos ser contra uma coisa sobre a qual nem sabemos qual é a posição do bastonário".
O estilo frontal e directo de Marinho Pinto é uma das suas imagens de marca e um dos pontos mais referidos quando se pede um balanço do seu mandato. Apesar de muitos dos advogados contactados pelo JN terem afirmado que partilham das ideias do bastonário, não deixam de fazer alguns reparos ao modo como têm vindo a ser transmitidas.
"Lançou questões que é urgente serem debatidas mas fê-lo com a habilidade de um elefante numa loja de porcelana", afirmou Silva Cordeiro.

Também Jorge Bacelar Gouveia partilha desta opinião: "há algumas críticas a fazer, mais em relação ao estilo do que ao conteúdo, mas quando foi eleito as pessoas já sabiam como ele era". Fernando Moura disse estar em "solidariedade total com o bastonário que pode ter um excesso ou outro, mas é um homem de bem, impoluto e honesto."
Castanheira Barros compreende a violência do discurso, uma vez que "se o discurso, por vezes, não é duro, ele não passa".
Já Cavaleiro Brandão, que afirmou estar "extremamente preocupado" com esta situação, mais do que o estilo, critica o conteúdo. "Tem falado contra a classe e não tem actuado de modo a garantir a unidade interna dos advogados e da própria Ordem.
O bastonário disse ao JN que não vai mudar de estilo porque "o que está em causa são gostos e, se me criticam o estilo, é porque não têm críticas de substância".


Fica a ideia de que o circo está montado... Vamos ver o que isto dá...

A lógica da castração

Agora até há um curso em que meiaq dúzia de senhores que não têm outra autoridade que não seja a que eles próprios colocam nas suas barrigas, pretendem dar lições aos advogados sobre os limites da sua liberdade de expressão.
Do que tenho lido, vão muito para além dos limites constitucionais, expressos no artº 37ª da Lei Fundamental, em que expressamente se afirma o seguinte:
1 - Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
2 - O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.

3 - As infracções cometidas no exercício destes direitos ficam submetidas aos princípios gerais de direito criminal ou do ilícito de mera ordenação social, sendo a sua apreciação respectivamente da competência dos tribunais judiciais ou de entidade administrativa independente, nos termos da lei.
4 - A todas as pessoas, singulares ou colectivas, é assegurado, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta e de rectificação, bem como o direito a indemnização pelos danos sofridos.
A Constituição é muito clara: ninguém tem o direito de condicionar nem o pensamento nem a liberdade de expressão de ninguém.
E em matéria de opinião, todos os cidadãos têm o direito à sua própria opinião e ninguém tem direito de pretender que alguém se cale.
Leio nos jornaias que o bastonário da Ordem dos Advogados (OA), Marinho Pinto, está livre do processo disciplinar que lhe foi instaurado depois de ter dito na televisão que o processo Casa Pia era uma "invenção, uma aberração jurídica" que visou "decapitar o Partido Socialista", afirmações que deram origem a uma participação das vítimas de pedofilia.
A decisão foi tomada por maioria, pelo Conselho Superior da Ordem, e teve dois votos de vencido.
O erro não está na decisão mas na simples instauração do processo, que mais não visava do que a castração do advogado coimbrão.
Segundo o Correio da Manhã, que diz ter tido acesso à decisão, os conselheiros recomendam "contenção verbal para que a Ordem seja respeitada".
Não quero acreditar no que leio... A afirmação contém um paradoxo em si mesma.
Que direito e que autoridade têm os do Conselho Superior para recomendar contenção ao bastonário eleito por sufrágio universal?
Parece-me que tem razão Marinho Pinto quando afirma que, enquanto bastonário, "tem o direito e dever de se pronunciar sobre todos os processos, se tal se mostrar necessário".
Diz o jornal que o Conselho Superior da Ordem dos Advogados avisa que o bastonário tem "responsabilidades acrescidas" no que diz respeito ao comportamento público e aconselha reserva e "contenção verbal para que a Ordem seja respeitada".
O que é que isto quer dizer?
Não se percebe bem... Mas que tem uma lógica castradora... isso tem.

A falência segundo Marinho Pinto

Toda a semana foi dominada pelo verbo forte de Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados.
Parece que o advogado coimbrão aprendeu muito com as estadia dos últimos meses em Lisboa. Àqueles que o apelidavam de «saloio», há alguns meses, responde agora com um discurso mais preciso e de mais fino recorte.
E aos que tentam manchar-lhe a imagem criticando o facto de ter uma retribuição mensal que lhe permita o digno exercício do cargo diz, de forma tronitroante, como nunca antes alguém dissera, que há quem ande na Ordem apenas para ganhar dinheiro.
Nunca ninguém teve a coragem de denunciar o escândalo da «formação» feita por advogados que não têm trabalho suficiente e que ali arranjaram um ganjo, sem que tenham sido sujeitos a qualquer concurso ou a qualquer teste,
Mas as palavras de Marinho Pinto valeram sobretudo por denunciarem publicamente aquilo que já toda a gente sabe mas ninguém tem a coragem de assumir: que o sistema de justiça completamente falido.

08 julho 2008

A zanga das comadres

Recebi hoje este comunicado dos Conselhos Distritais da Ordem dos Advogados:

COMUNICADO

Caros e Caras Colegas

Como é do conhecimento geral, o Sr. Bastonário e o Conselho Geral da Ordem dos Advogados aprovaram o Regulamento do Apoio Judiciário. Sobre esse Regulamento não foram ouvidos os demais órgãos da Ordem, nomeadamente os Conselhos Distritais e as Delegações.
Recentemente, o Sr. Bastonário veio a público acusar os Conselhos Distritais de quase não apresentarem propostas, afirmando que as poucas que fizeram foram por si aceites – v. suplemento LEX do Jornal de Negócios de 25/06/08.
O Sr. Bastonário falta à verdade.
O Sr. Bastonário convocou os Presidentes dos Conselhos Distritais para uma reunião em 12/06/08 apenas para, por um lado, lhes dar conhecimento de que já havia aprovado o Regulamento do Apoio Judiciário na generalidade e, por outro lado, para apresentarem propostas, mas tão-só para alterações na especialidade.
Apesar dos Presidentes dos Conselhos Distritais logo na ocasião terem sugerido alterações de “fundo” e na dita “especialidade”, três dias depois, sem ter dado tempo para uma efectiva audição, fossem os Conselhos Distritais fossem as Delegações, o Sr. Bastonário fez aprovar em Conselho Geral o Regulamento na especialidade.
Esse Regulamento, como é consabido, mostra-se altamente gravoso para a classe, é ilegal e contraria o sentido expresso de forma unânime pelos Conselhos Distritais e por todas as Delegações que entretanto se haviam pronunciado sobre a matéria, merecendo inclusive voto contra de seis membros do Conselho Geral.
Esta prática do Sr. Bastonário, neste caso concreto, não é um caso isolado.Já anteriormente tem sucedido, que o Sr. Bastonário convoca os Presidentes dos Conselhos Distritais para lhes dar conhecimento de matérias ou já previamente deliberadas por si e pelo C. Geral ou já previamente por si definidas sob a invocação de que consta no seu programa eleitoral.
O Sr. Bastonário não convoca os Presidentes dos C.D. para reuniões do Conselho Geral nos termos do n.º 3, do artº 44º do Estatuto da O.A., e afirma que jamais o fará, por entender que o C. Geral reúne apenas com os membros eleitos para esse órgão.
É um direito que tem. Não pode, porém, é iludir a falta de participação, para a formação da vontade da Ordem dos Advogados Portugueses, dos Conselhos Distritais, e das Delegações através destes, convocando os presidentes dos Conselhos Distritais para reuniões, na generalidade, sem prévia ordem de trabalhos e sobre assuntos previamente já decididos.
Concluem assim os Conselhos Distritais signatários que o Sr. Bastonário apenas convoca as reuniões com os Presidentes dos Conselhos Distritais para dar uma aparência de legitimação aos actos já por si praticados e às deliberações já previamente tomadas em Conselho Geral.Entendem assim os Conselhos Distritais da Ordem dos Advogados signatários:
a) que os Presidentes dos Conselhos Distritais devem deixar de participar nesse tipo de reuniões, para desta forma deixar claro que não legitimarão com a sua presença deliberações tomadas ao arrepio do sentimento geral da classe, nem permitirão esse tipo de aproveitamento por parte do Sr. Bastonário.
b) manter-se disponíveis para reunir com o Conselho Geral, órgão este que possui as competências de definição da política em geral da Ordem dos Advogados, v. n.º 1 do artº 45º do Estatuto da O.A.

Os Conselhos Distritais da Ordem dos Advogados de Coimbra, de Évora, de Faro, de Lisboa e do Porto
Parece-me que o Marinho Pinto tem razão. A matéria em causa é, claramente, da competência do Conselho Geral e não dos Conselhos Distritais.
Mas, tudo indica, isto não são mais do que trocas de flores. O que, verdadeiramente, está em causa é a gestão de um balúrdio, para pagamento do apoio judiciário.
Não concordo que esses fundos sejam geridos pelos próprios advogados e, muito menos, que seja a Ordem a fazer essa gestão.
Tal facto ofende, no mínimo, a transparência que o negócio merece. E prejudica gravemente os interesses dos cidadãos, que deveriam poder escolher o seu advogado. E não podem...

02 julho 2008

De novo a censura?

Leio e não quero acreditar que seja verdade:

«Um tribunal mandou fechar um blogue anónimo e identificar o autor. Foi a primeira vez em Portugal. Em causa estão "artigos de opinião" que atentam "contra o direito à honra, à credibilidade, prestígio e confiança" de dois autarcas.
A decisão da 1.ª Vara Cível de Lisboa foi tomada em Maio, depois de uma providência cautelar interposta pelos presidente e vice-presidente da Câmara da Póvoa de Varzim, Macedo Vieira e Aires Pereira. Na passada sexta-feira, a Google Inc. e Google Portugal encerraram o "Povoaonline". O blogue foi removido, mas o(s) autor (es) já terá criado mais. Entretanto, a Google já terá entregue a identificação do autor usados na criação do blogue, pedidos pelo Tribunal.
A decisão judicial de 13 de Maio notifica a Google para, "de imediato", impedir o acesso ao "Povoaonline", "por suspeita da prática de acto ilícito". No acórdão, o tribunal considera que a maior parte do conteúdo do blogue consistia em "artigos de opinião" sobre os dois autarcas, criticando-os, não só no exercício das suas funções, mas também "como cidadãos, pais, familiares e amigos".
Considera o juiz que "todas estas publicações foram feitas não com o objectivo de publicar uma crítica construtiva, baseada em factos provados, concretos e objectivos, mas com o objectivo de difundir, junto do público, de forma gratuita, a ideia de que os requerentes são corruptos e corruptíveis". Assim, o tribunal entende que os textos e imagens difundidos "extravasam claramente o núcleo do direito à liberdade de expressão", atentando "contra o direito à honra, à credibilidade, ao prestígio e à confiança" dos autarcas.
Ontem, na blogosfera poveira não se discutia outra coisa: uns consideram "inadmissível que alguém, cobardemente, se esconda atrás de um computador", - presume-se que colectivo - "Tony Vieira", e aplaudem a decisão que, "trará, a partir de agora, alguma ordem à blogosfera". Outros dizem tratar-se do "regresso da censura". O facto é que, o mesmo autor tinha, ontem, criado já mais dois blogues: o "Povoaoffline", que diz-se, no post inaugural, "surge na sequência da eliminação do 'Povoaonline' e com o objectivo de colmatar uma lacuna", e o "Advogado da Califórnia", que se auto-intitula como o novo blogue do autor "Tony Vieira".
Macedo Vieira prefere não comentar o caso, mas lembra que "a justiça pode não ser tão rápida como se desejaria, mas acaba por chegar lá". A identificação do administrador do blogue, ao que o JN apurou, estará já nas mãos da Justiça e o caso seguirá, agora, em Tribunal. Quanto às acusações de censura, o edil lembra que o blogue é "insultuoso", levado a cabo por alguém que se esconde por trás "do anonimato".
A notícia é do Jornal de Notícias.
Se for verdade, estamos, objectivamente perante um caso de censura, que é absolutamente ilícito e inconstitucional.
A liberdade de imprensa tem limites - é verdade. Mas esses limites estão expressos, de forma clara, no artº 37º da Constituição que declara, expressamente o seguinte:
«1 - Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
2 - O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.
3 - As infracções cometidas no exercício destes direitos ficam submetidas aos princípios gerais de direito criminal ou do ilícito de mera ordenação social, sendo a sua apreciação respectivamente da competência dos tribunais judiciais ou de entidade administrativa independente, nos termos da lei.»
Nenhum juiz tem o direito de impedir que um cidadão se abstenha de emitir opiniões.
Estamos perante um abuso intolerável e uma inaceitável agressão à liberdade de imprensa.

01 julho 2008

As urtigas do apoio judiciário

Caiu-me hoje este comunicado na caixa do correio.
Cada cabeça sua sentença. Cada um fala para o seu lado. Estes procuram seduzir os jovens advogados... Mas o que está em causa não é a qualidade da justiça.
São mais de 30 milhões de euros e um sistema que serve para subsidiar indirectamente os escritórios a quem forem adjudicados os lotes.
Como pode admitir-se que sejam os próprios advogados a distribuir entre si os processos?
São milhões deitados às rua. Quando é certo que, com esse dinheiro poderia haver um serviço de apoio judiciário decente, permitindo-se aos utentes que escolhessem os advogados que aderissem aos sistema.
«O Conselho Distrital de Lisboa repudia o procedimento de não audição efectiva dos Conselhos Distritais e das Delegações em matéria de extrema importância para a advocacia que é o Regulamento de Organização e Funcionamento do Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais na Ordem dos Advogados.
A manter-se a formulação apresentada, tal Regulamento é discriminatório e está ferido de ilegalidade por violação dos artigos 189º do Estatuto da Ordem dos Advogados (Lei nº 15/2005 de 26 de Janeiro) e 4º da Lei dos Actos Próprios dos Advogados e dos Solicitadores (Lei nº 49/2004 de 24 de Agosto).
Não existem quaisquer razões substanciais ou formais, no quadro da actual lei em vigor e das competências estatutárias reconhecidas, isto é, nos casos em que podem ser livre e autonomamente mandatados, que justifiquem a limitação dos advogados-estagiários ao patrocínio e defesa apenas em substabelecimento com reserva conferido pelo seu patrono.
É restrição à liberdade de exercício e dependência que a lei não impõe e a prática desaconselha, tanto mais que a formação exige a intervenção e pode provir da experiência do patrono ou de outros colegas mais velhos e experientes, não sendo sequer tal cuidado de consulta e de acompanhamento exclusivo dos candidatos à advocacia.
Acresce que é discriminatória a limitação da actuação dos advogados-estagiários em gabinetes de consulta jurídica, e não, como aos restantes, também nos seus escritórios, tal como é discriminatório não permitir a autónoma inscrição do advogado-estagiário para a intervenção em escalas e no patrocínio por nomeação ou na defesa oficiosa para as áreas em que tem competência.
A competência profissional, a qualidade do patrocínio ou a efectividade da defesa não se aferem pelo título, pela destrinça de cédulas, pela idade ou, até, pela simples maior ou menor experiência, tem sobretudo que ver com o estudo, o brio, a preparação, o empenhamento e a humildade intelectual, dos mais novos e dos mais velhos, de procurar alcançar a melhor solução jurídica para a pretensão legítima do cidadão e, se, quando e sempre que necessário, obter o conselho e o acompanhamento dos mais sabedores e dos mais experientes, designadamente dos patronos, mas não só.»